//25 – VOLTA AO CHILE NA ENCANTADA PUNTA ARENAS

25 – VOLTA AO CHILE NA ENCANTADA PUNTA ARENAS

Deixando a Argentina, dormimos mais uma vez no Posto de Combustível da rede YPF e fica aqui nosso agradecimento e reconhecimento de excelência no atendimento, no preço, na disponibilidade de produtos e na localização. Sempre que precisávamos de um posto, lá estava o YPF, com banheiros limpos, energia elétrica e água potável para abastecer a Caca.

Para quem viaja pela Argentina, o YPF é realmente um pote de ouro.

Passamos novamente pela fronteira do Chile e fomos preparados. Já sabemos que eles não permitem entrar no Chile com frutas, verduras, legumes e mais alguns comestíveis. Desta vez eles confiscaram somente um alface.

Decidimos seguir por um novo caminho sem asfalto, margeando a Bahia Inútil, um apêndice do Estreito de Magalhães, formada pelo Oceano Pacífico. Para nós também foi inútil. Não tinha belas paisagens, a estrada de rípio não era das melhores e muita poeira.

O que de mais interessante ocorreu nos mais de 120km de estrada de pedras, foi o mar de ovelhas que também usavam a estrada e cercaram a Caca, sob os cuidados tranquilos do pastor, mas quem cuidava e direcionava mesmo as ovelhas, eram os cães, que mais pareciam se divertir enquanto trabalhavam.

Enfim chegamos na cidade de Porvenir, pequena, parece que o tempo congelou por ali. Na espera da balsa, uma agradável conversa com os guardas que cuidam do trânsito de entrada e saída. Foi a primeira conversa com chilenos um pouco mais demorada e deu para perceber que, por aqui a amabilidade faz parte dos costumes.

Na rota da Bahia Inútil, não vimos colônias de pinguins que nos disseram que tinha e a balsa foi muito mais cara. Mas foi uma emoção navegar por mais de duas horas pelo Estreito de Magalhães, que conhecemos ainda nos tempos de escola, entre Porvenir e Punta Arenas.

A Caca embarcou na primeira fila, gentileza dos guardas que orientam o trânsito na balsa, talvez por conta da boa conversa que tivemos esperando a balsa chegar.

O canal tem o nome em homenagem a Fernão de Magalhães, navegador espanhol que desbravou o planeta e foi o primeiro a alcançar a Tierra del Fuego, desbravando o estreitou que

une os oceanos Atlântico e Pacífico.

Chegamos em Punta Arenas e já ficamos encantados com a cidade, muito limpa, organizada, trânsito educado, calçadas largas, bom asfalto e pessoas amáveis. Punta Arenas é a cidade mais povoada da Patagônia Chilena e a que tem o melhor índice de qualidade de vida em todo País.

A cidade não tem camping para motorhome e os caravanistas costumam dormir nos estacionamentos à beira mar. Nós também paramos em um deles e logo em seguida alguém bateu no vidro. Fui atender e um homem nos convidou para dormir no quintal da casa dele a um custo de 15 mil pesos chilenos por dia. Fiquei desconfiado com a oferta e assustado com o valor, ainda não estávamos acostumados com o câmbio do Peso Chileno.

Percebemos que era gente boa e aceitamos o convite.

Ele foi nos guiando e chegamos na casa dele, onde já haviam um casal suisso, um casal brasileiro e um casal argentino, todos resgatado pelo Victor que percorre os estacionamentos convidando os motohomeiros para dormir em seu quintal.

Dormimos tranquilo e na manhã seguinte o suisso já se aproximou e passamos um bom tempo conversando. Pascal e Petra estão há dois anos e meio viajando pela América. Comprou um trailer e uma caminhonete nos Estados Unidos, viajou por toda a América e agora venderam tudo para voltar a trabalhar na Suíça.

Ele me contou que construiu casas e ganhou muito dinheiro em seu País. Como não sabia o que fazer com tanto dinheiro, resolveu parar de trabalhar e viajar. Agora vai voltar a trabalhar para aproveitar os últimos anos de vida. Ele tem 37 anos e tem certeza que o mundo vai acabar daqui a 20 anos e fala sério, como se soubesse a verdade. Não quer ter filhos, não quer trabalhar o tempo todo e nem acumular riquezas.

Estaria certo o suíço? O mundo vai acabar?

O Pascal me ajudou com um reparo na Caca e quando escapava a chave, ele xingava em alemão. Eu disse a ele que não estava entendo nada. Ele me disse que estava xingando. Então eu ensinei ele a falar nossos palavrões. Ele gostou e repetia toda hora. Não vou escrever quais os palavrões, mas eram os nossos mais comuns. tipo…

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Saímos para passear a pé pela cidade e nossa primeira visita foi no cemitério. Isto mesmo. A dica foi do Victor, que nos disse que o lar dos mortos é um ponto turístico da cidade por conta do belo jardim. Fomos conferir as estranhas árvores que crescem com adubos mortos, literalmente.

As árvores estranhas também estão espalhadas pela cidade, sempre muito bem aparada, em vários formatos, sem adubo morto.

Na mesma avenida do cemitério fica o monumento em homenagem ao pastor de ovelhas, profissão muito comum nos campos do sul do Chile.

Ade ficou com medo quando viu esta placa.

Já ocorreram dois grandes terremotos seguidos de tsunami que abalou a cidade. Um em 1.893 e outro em 1.949, que atingiu toda Tierra del Fuego. Existem placas por toda cidade e de tempos em tempos acontecem simulações de fuga em caso de tsunami.

Realmente neste lugar procede a preocupação. Por perto existem vulcões adormecidos que podem acordar a qualquer hora, jorrar suas lágrimas de fogo e provocar incalculáveis catástrofes. Por precaução, no meio da cidade tem até um pequeno rio que foi canalizado para servir também como escoamento da água em caso de tsunami.

Punta Arenas é a porta de entrada mundial para o Pólo Sul. Aqui 15 países tem sua base cientifica para estudos na Antártica e 25 outros países usam seu porto esporadicamente. Na cidade vivem em torno de 500 cientistas, por isso, é conhecida como a “cidade cientifica”.

Como o principal meio de transporte para a Antártica é pelas águas, existem barcos por todos lados, muitos abandonados na beira da praia.

O tempo de glória da cidade terminou 1.914, quando foi inaugurado o Canal do Panamá, até então, o Estreito de Magalhães era a única ligação segura entre os Oceanos Atlântico e Pacífico. Naquela época, a maioria dos habitantes eram europeus, que deixaram suas marcas na arquitetura do centro da cidade.

Durante nossa caminhada ventava muito e um vento gelado. Naquele dia os ventos passavam dos 100 km/h. Ade comprou um pé de ferro como contra peso, para não ser carregada pelos fortes ventos.

Almoçamos no Mercado Municipal, num restaurante, que existe desde 1965, comandado por um senhora muito simpática e conhecida na cidade. Nas paredes, recortes de jornais exibem reportagens sobre ela e o marido, que abandonaram o lar em outra cidade, após um terremoto. Mudaram para Punta Arenas e iniciaram um comércio de comidas que atraiu muitos clientes.

Voltamos bem mais pesados, sacamos dinheiro no caixa eletrônico, visitamos algumas lojas, assistimos um show de rua e voltamos para casa por que o verão aqui é mesmo muito frio.

O dia nesta cidade é muito curto. Primeiro que todo mundo acorda tarde e a cidade só começa a funcionar depois das nove horas da manhã. Fecha quase tudo das 12 às 15 horas para uma sonequinha e encerra o comércio às 19 horas, quando o sol ainda está alto.

No quintal do Victor, Ade fez amizade com Vanda, uma brasileira que viaja com seu filho e com o marido, colhendo fotos e histórias para editar um livro sobre os portos da marinha em toda América do Sul. Claro, as duas tiveram a feliz idéia de fazer um bolo de bananas, que ficou ótimo, saboreado com leite na temperatura ambiente, leia-se gelado.

Punta Arenas era conhecida como “la ciudad de los techos rojos”, a cidade dos telhados vermelhos. Não se sabe o motivo mas quase todos pintavam os telhados de vermelho. A partir da década de 70, começaram a pintar os telhados de outras cores, dando um tom mais alegre para a cidade que faz frio no verão e congela no inverno.

A maioria dos telhados são de metal e muitas paredes também são de metal. Algumas são construídas com paredes de madeira, compensado mesmo.

Punta Arenas recebe muitos turista por ser uma bela cidade, de povo acolhedor, por ser uma das portas de entrada para as Torres del Paine e, também, por ser uma zona franca, livre de impostos. Na cidade existe uma área de 53 hectares, onde fica um centro comercial com lojas de eletrodomésticos, eletrônica, fotografia, perfumaria e, claro, aqueles produtos diversos “made in china”.

O Cierro de la Cruz é o ponto mais alto da cidade, de onde se tem uma bela visão dos telhados coloridos, do Estreito de Magalhães e um pedaço da Tierra del Fuego. No alto do Cierro é também onde o vento sopra mais forte.

No centro da cidade, na Plaza Muñoz Gamero, fica o monumento que representa o navegador Fernão de Magalhães e tem uma lenda depositada. Dizem que quem beija o pé do Índio, que esta abaixo do Fernão, vai voltar um dia para a cidade.

Ade beijou, eu não, mas como onde um vai o outro vai também, voltaremos a Punta Arenas.