//27 – BILBAO E PAMPLONA – ESPANHA

27 – BILBAO E PAMPLONA – ESPANHA

Saímos de Bordeaux e fomos pelas rodovias não pedagiadas, próximas do mar, passando pelas pequenas cidades e vilas, observando a vida comum dos moradores da França e da Espanha. Paramos em alguns lugares bonitos para contemplar a beleza natural, apesar do tempo nublado.

Na cidade de Parantis-en-Born, encontramos uma feira livre e fomos conhecer seus produtos regionais. Foi muito legal por que em quase todas as bancas, eles oferecem provas para degustação. Você não precisa comprar. Provamos várias linguiças, frutas, bolachas, patês, doces e bebidas artesanais.


Em uma loja aberta no domingo, junto com a feira, a Ade encontrou cristais da Boêmia a um valor que a deixou maluca e teve que comprar. Seis taças de cristal colorido e esculpidos ao valor de uma no Brasil, segundo ela. Tudo bem, mais uma carga para a carrinha que já começa a ficar com falta de espaço.

Ela até pousou para uma foto com seu novo presente, no belo coreto da cidade.


As estradas encantavam a cada momento e nós comentávamos sobre a nossa alegria de estarmos naqueles locais, tão longe de casa, conhecendo lugares que sequer seria possível de imaginar e, onde talvez jamais voltaremos. 

A cada momento um comentário e um agradecimento a Deus pelo que estamos vivendo.

A chuva e o sol se alternaram em nosso percurso. Nos locais de maior beleza, descíamos da carrinha mesmo na chuva para apreciar. Passamos por praias, lagos, belas plantações e áreas de preservação ambiental. 

Em vários quilômetros ao longo de alguns trechos, uma ciclovia segue paralela da rodovia e passamos por muitos ciclistas usufruindo da bela estrutura.


Seguimos pelo litoral até terminar o território francês, depois pegamos a rodovia pedagiada para chegar a Bilbao.

No final da tarde chegamos a Bilbao, direto para o hotel, banho, um lanche e dormimos confortáveis ainda com a chuva caindo.

Nesta região, onde fica o País Basco, ficam as cordilheiras dos Pirineus, com montanhas altas que mantém o clima quase sempre úmido ou chuvoso na região.

 

País Vasco ou Basco, faz parte de uma eterna discussão de separação política e territorial na Espanha. 
 
Tal qual o país Basco, a Catalunha, Cantábria, Astúrias, Andorra, Gibraltar, Galícia, Navarra, Ilhas Canárias e até cidades como Ceuta e Melilla, dentre outras regiões, lutam para se manter autônomas, mas ligadas à pátria mãe. Cada região com suas características de vida própria, falando um idioma regional e o espanhol, ou seja, separados mais unidos. 
 
Nas placas de orientação e de informações nas ruas, lojas, museus, são escritas nas duas línguas. O espanhol, mais fácil de ler e compreender, e o euskera, que é uma loucura. Palavras grandes, muitas letras z, x, y, w que mais parecem russo. Foi engraçado ficar tentando falar as palavras em euskera.
 

A chuva fraca não atrapalhou nosso passeio. Após o almoço o sol apareceu e ficou ainda melhor. Andamos pelo centro de Bilbao, observando lojas, a rica arquitetura, as praças floridas e os monumentos de homenagens, mesclando o antigo com o moderno de forma harmonizada.


Bilbao é cortada pelo Rio Nervión e cercada por montanhas com mais de 400 metros de altura. O rio que leva ao mar, fez de Bilbao um importante centro comercial da Europa, especialmente, na área de metalurgia, que lhe deu o apelido de “cidade de ferro”. Hoje, com a extração controlada, a cidade se tornou uma das importantes cidades de serviços da Espanha.

 

Às margens do rio, fica o conjunto arquitetônico símbolo da cidade, o Museu Guggenheim, uma arte em arquitetura coberta com titânico e aço inox. O piso de granito cobre todo o espaço do museu. Todos matérias primas naturais da região.

O museu por dentro, tem um acervo sem grandes expressões. Quando fomos entrar, sem usar uma forma educada, pediram para eu deixar a máquina fotográfica e o celular por que lá é proibido fazer fotos. Voltamos sem entrar.

Por fora, observando a arquitetura, dependendo do ângulo que se vê e com uma boa dose de imaginação, lembra escamas de peixe, ou uma flor ou, quando vista do rio, lembra uma embarcação.

 

 


A atração principal é o ursinho gigante que fica na frente do museu, todo coberto por flores. 

Ele foi criado para um evento especial e se tornou uma das atrações mais visitadas na cidade. Muito bonito e bem cuidado.

 

O aço inox está por toda parte. Paredes, suportes, estruturas de sustentação, parquinhos, enfeites e vários outros detalhes pela cidade toda são fabricados com o nobre metal.


Na região ainda existem minas de extração nas montanhas deixando à mostra o prateado de preciosos metais na terra cortada.

Ao voltarmos para o hotel, que fica afastado do centro da cidade, nosso GPS ficou quase doido com tantos desvios por conta de obras de melhorias que estão acontecendo na cidade. 

Bilbao já recebeu prêmio como destaque em urbanismo e continua melhorando a qualidade de vida de sua população. Ruas largas, calçadas perfeitas, faixa de segurança elevada, bancos para descanso e um elogiável transporte coletivo, com ônibus de dois andares, trens urbanos elétricos e o metrô, logicamente, quase todo recoberto de inox.


No inicio da civilização na região, existia uma muralha sobre uma colina. A cidade cresceu e tem hoje uma parte alta e uma parte baixa que, em vários pontos possui elevadores gratuitos para o acesso mais confortável. 

Na cidade existem várias zonas de wi-fi, para uso gratuito da internet.


Paramos para um descanso e para apreciar um belo parque, no centro da cidade, muito bem conservado, onde atletas aspirantes fazem suas corridas e caminhadas. Depois caminhamos sem rumo pelas ruas, adivinhando o caminho para o estacionamento onde estava a carrinha. Achamos.


Dia seguinte amanheceu com chuva. Ficamos em casa pela manhã esperando o sol aparecer e ele apareceu. 

Fomos conhecer mais igrejas, por onde passam peregrinos a caminho de Santiago de Compostela. Chegamos até o bairro de Casco Viejo, mais famoso da cidade, andando sem pressa, observando a arquitetura centenária, com prédios onde os detalhes se destacam como obras de arte.

 

 

Este bairro é um dos pontos mais visitados pelos turistas por conta da quantidade de lojas, restaurantes e tabernas, onde as pessoas ficam tomando vinho ou champanhe na calçada. 

Ficamos sentados na frente da igreja, naquele banco da foto de cima que cabem somente duas pessoas, observando a elegância das senhoras bascas que saem para passear e fazer compras. Os homens são desleixados mas as senhoras…, algumas impecáveis.

Sob os olhares atendo das duas da direita, a senhora de lenço azul parece reprimir a moça de cara preta. Cara preta? ou ela está com a cabeça virada? Que medo!

Voltamos para a Gran Via para passear pelas lojas, entramos no El Corte Inglês para trocar um produto com defeito que compramos ontem e almoçamos em um restaurante japonês, muito bonito, comida ótima e um atendimento exemplar para o comércio.

Lembrei de uma frase que vi na internet e me fez rir, mesmo assim vou postar. Estava escrito: “Pobre não pode comer uma comida melhorzinha que já posta nas redes sociais”. Eis o nosso papel de pobre.


Com a carrinha, fomos rumo ao mar conhecer as praias dos bascos. Passamos pela simpática cidade de Portugalete e rodamos beira rio e beira mar observando um porto que nunca terminava.

Chegamos na praia La Arena, o sol estava escondido atrás das nuvens e o vento frio soprava e incomodava e nos fez voltar rapidinho. 

A praia de areia escura, com caminhos delineados para o banhista passar, tem algumas lanchonetes e uma porção de ambulantes vendendo de tudo, inclusive roupas de frio.

Pela manhã levamos a carrinha para lavar e depois para uma revisão completa, tudo em ordem. Ela está fazendo 17 km/l de diesel e está custando 8 centavos de Euros por km, com combustível.

Fomos para Pamplona, participar da festa de San Firmin. A estrada é maravilhosa. Fomos passando por meio de montanhas cinzas que as vezes parecem azuis e vales verdes, que parecem verde mesmo. Mas as montanhas confundem.

 


A cidade de Pamplona é uma graça. Andamos com a carrinha para conhecermos, até que paramos para um pic-nic em uma praça. Já havíamos terminado o lanche quando um policial municipal veio nos dizer que não poderíamos ficar por ali, pois era reservado aos toureiros.

O policial não nos apressou e ainda contou toda a história da festa mais tradicional da Espanha.


Levamos a carrinha para um estacionamento e saímos a passear na cidade, em dia de festa. A festa de San Firmin dura 9 dias e as principais atrações são as touradas, com os melhores toureiros do planeta, a corrida dos bois, as bandas de rua e os shows musicais que acontecem em várias praças da cidade.

Nos dias de festa, e somente nos 9 dias durante o ano, todos se vestem com roupas brancas e vermelhas. Eu disse todos mas na verdade fica entre 90 a 95% das pessoas, incluindo turistas moradores, garçons, motorista de ônibus e de taxi, crianças, idosos, enfim, é muito bonito ver quase todas as pessoas com as cores que homenageia San Firmin.

Tem gente por todos os lados com roupas da mesma cor, numa festa alegre e comportada. Apesar de consumirem muita bebida alcoólica, o comportamento é exemplar, pelo menos o que vimos. Gente alegre, quase sempre em turmas, andando pelo centro novo e pelo centro histórico a observar e se divertir.

 

Os shows principais acontecem na Praça Maior, onde tem um palco e muita gente de vermelho e branco. Outras apresentações acontecem em outros locais mas o tradicional mesmo são as dezenas de bandinhas que circulam por todos os lados arrastando pessoas com seus ritmos alegres. É como se fosse um carnaval no Brasil, até bonecos gigantes desfilam pelas ruas, em vários pontos da cidade.

São nestas ruas apertadas que acontece todos os dias, às 8:00 horas em ponto, a famosa corrida dos touros. Sério, eles soltam touros bravos em meio a multidão e todos saem desesperados correndo dos touros e lutando para não cair. Quem cai é pisoteado, como bem ilustra o monumento em homenagem a corrida dos touros que fica em uma das ruas centrais da cidade. 

 

Não vimos a corrida dos touros nas ruas, mas creio que não chegaríamos perto para ver. As ruas são estreitas e quase não tem lugar para se esconder. Como disse nosso amigo policial, só louco entra por aquelas ruas durante a corrida. Ele disse que a corrida acontece pela manhã para evitar os afoitos bêbados que circulam ao entardecer. Pela manhã todos ainda estão sóbrios, só pela manhã.

No decorrer do dia muitos circulam pelas ruas com seus baldes, onde transportam a bebida para consumo próprio. Os baldes são vendidos nas lojas, alguns decorados custam mais caros e outros são gratuitos e trazem propagandas de grandes marcas.

O policial me contou também que a festa de Pamplona é a principal da Espanha e chega gente do mundo todo para participar. 

A tradição vem de muito longe e tudo começou por que os moradores das vilas queriam comer a carne dos touros mas não tinham como traze-los. Os touros selvagens eram então atraídos pelos homens que iniciavam uma corrida na frente dos animais, que seguiam afoitos querendo chifra-los e assim eles os traziam até a vila, onde outros homens ajudavam a sacrificá-los. Depois distribuíam sua carne para alimentar o povo. 

Já aconteceram mortes e os ferimentos são constantes no povo doido que corre do boi doido. Nas ruas apertadas por onde passam, existem poucos abrigos para os loucos que se aventuram na brincadeira. Equipes médicas e de socorro ficam de plantão o tempo todo.

 

Fomos ver a tourada, principal atração da festa, que acontece na Plaza dos Toros. Arena lotada, 16 mil pessoas quase todos de vermelho e branco. 

Os espanhóis são fascinados por touradas, como disse Pablo Picasso no passado, o domingo ideal tem missa pela manhã, tourada a tarde e bordel à noite. Dizia ele que poderia faltar a missa e o bordel, tourada nunca.


Entram as pessoas que realizam o cerimonial de início, cada um com com funções especificas para o evento. Os toureiros entram como gazelas, todos com muita pose, com seus trajes bordados com ouro. As vestes dos toureiros auxiliares são bordadas com prata e os picadores entram com cavalos enfeitados.


Cerimonial de abertura encerrado, todos em seus devidos lugares, soam as cornetas e…, “que entrem los toros”. 

Eles entram e os toureiros auxiliares ficam zombando dele, balançando seus capotes, fazendo-o ir de uma lado para o outro várias vezes, até cansá-lo. Eles fazem o touro correr e se escondem atrás de tapumes.


Depois vem cara malvado, com um cavalo todo protegido, com um arpão de dois metros, que ele soca no lombo do touro que começa a sangrar. Estes são os picadores e, notem que seu cavalo vem com os olhas tapados, provavelmente para não assistir a covardia com seu semelhante.


Novamente entram os gazelas auxiliares, digo, toureiros auxiliares e provocam ainda mais o já ferido touro. Outros gazelas, digo banderilleros, enfiam sem dó umas pequenas lanças coloridas no lombo do touro que já começa a cambalear.


Depois de muito judiarem do pobre animal, quando ele não corre mais e ofega, entra em cena o gazela matador, digo o toureiro matador

Cheio de fazer poses com muitos trejeitos, balançando seu capote, ele dribla o touro cansado e sangrando. O público o aplaude de pé, reverenciando-o como um herói e gritam “olé”. 

Chega o momento crucial. Depois de alguns minutos judiando, o gazela matador, digo toureiro matador, enfia-lhe uma espada de meio metro no lombo do touro. 

Ele cambaleia, cai de joelhos diante das sapatilhas feminina do gazela e tomba na arena, deixando uma poça de sangue, símbolo da maldade de um espetáculo que não precisaria existir. 

Pablo Picasso não tinha razão. Ele bem diria se falasse “no domingo ideal, não pode faltar a missa”.

Durante a tourada são seis touros sacrificados, dois para cada matador, famosos na Espanha, ganham muito dinheiro, troféus e, quando fazem um sacrifício perfeito, ganham a orelha do touro como símbolo de bom profissional.

Em um momento, um dos touros acertou o gazela, digo toureiro, jogando-o ao chão e desferindo-lhe várias cabeçadas, até que os auxiliares o ajudaram, espantando o animal ferido e feroz, com sede de vingança. 

Também não queria que o gazela, digo toureiro, se ferisse mas, confesso que vibrei com a vingança do bravo touro, já no desespero, à beira da morte. 

As pessoas que lotam a arena todos os dias, levam seus lanches para comer durante o massacre. Uma simpática senhora nos ofereceu champanhe e bolachas com chocolate e nós, claro, aceitamos. 


A Ade não quis ficar mais compartilhando com o extermínio, chorou nos primeiros momentos e eu também não gostei da diversão idiota de sacrificar um animal, simplesmente para alegrar uma multidão, que alegam ser tradição, endeusam e enriquecem os gazelas, digo assassinos, opa!, eu quis dizer toureiros matadores. 

Quer saber? Gazelas, assassinos e cavardes, mesmo. São 10 ou 15 homens armados para matar um touro, que sequer pode fugir. 


A cena mais aplaudida é a saída do touro morto, arrastado por cavalos floridos, exibindo o resultado da ignorância de um povo que se encanta com o sacrifício.


Não é preciso torturar de forma covarde, pois, são dezenas de gazelas que se envolvem no sacrifício. Se eles gostam mesmo de matar touros, que arrumem um emprego no frigorífico.

 

Neste texto, não quis de forma alguma ofender as gazelas.

 

Saímos revoltados no meio da festa e jamais voltaremos a assistir tamanha covardia com animais que tanto nos oferece. 

Eu e Ade saímos tristes da Plaza dos Toros, enquanto o povo ignorante, ovacionavam o “herói”, atirando lenços e flores durante sua volta triunfante pela arena. 

É uma gazela, ou não é?

Voltamos para mais uma volta pelas ruas apertadas, agora com muito mais bêbados. 

Pegamos a carrinha no estacionamento e voltamos para Bilbao, alimentando novamente os bons sentimentos de humanos que somos, curtindo as montanhas cinzas que ás vezes parecem azuis.