//27 CANOA QUEBRADA – CE

27 CANOA QUEBRADA – CE

 

Fomos de Macau para Mossoró, passando pelo povoado de Areia Branca, por uma estrada cheia de surpresas. Pequenos trechos ruins, sem asfalto, no restante a estrada é boa e apresenta espetáculos da natureza bem diversificados. 
Um momento lembra um pantanal com lagoas e vegetação rasteira, com animais se alimentado. Outro um deserto com dunas enormes e ventos soprando nuvens de areia. Outro o asfalto é invadido por faixas de areia. Outro o mar fica bem ao lado da estrada. Outro passa por montanhas de falésias com areias de cores vivas e variadas. 

Avistamos várias salineiras, cada uma com enormes montanhas de sal.  Passamos por centenas de poços que extraem gás e petróleo e outras dezenas de enormes parques eólicos que produzem energia elétrica, colhida por cataventos que nos remete a um brinquedo da infância. 

Deste progresso todo,  surgem defensores da natureza dizendo que as torres tiram a beleza da paisagem. Não entendo. Radicais criticam as hidroelétricas por que alagam terras, eólicas por que tira a beleza, nuclear por que explode e carvão por que polui. Tentam barrar um dos principais bens da humanidade que é a energia elétrica. Não vou escrever sobre isto agora mas, pensem como seria a vida sem a produção da eletricidade. Que os radicais como ouvi por aqui, desistam desta luta inglória e se ocupem em adaptar a beleza ao necessário.

 

Chegamos a Mossoró fazer serviços de banco, almoçar e comprar castanhas. 
Partimos para Canoa Quebrada por uma rodovia de boa qualidade, porém sem postos de gasolina, barracas de frutas ou lanchonetes. 

 

Chegando no destino, inicia-se a saga de encontrar o melhor local para se instalar. Fui direto em algumas escolhidas na web e descobri que são 80 opções de pousadas e hotéis na cidade. Passamos por algumas e escolhemos uma pousada bem legal e ainda pertence ao um brasileiro. As outras são basicamente de argentinos ou italianos. Aqui também eles estão aos montes. 

 

A rua central somente para pedestres com lojas diversas e bares, termina numa praça onde está a matriz. Tem locais para refeições a preços baixos e altos. Muitas vezes é o mesmo alimento o que muda é o requinte do local e da forma de servir. 

 

Nós gostamos de escolher os locais de refeições pela limpeza. Sempre que possível espiamos a cozinha, o estilo de quem serve e a conservação da decoração e dos utensílios de servir. Uma breve observada em mesas, cadeiras, toalhas, guarnições, pisos e especialmente os banheiros nos dá aquela primeira impressão. Não que deixamos de comer em um local pela deficiência de um destes itens, mas se vários deles estiverem em desacordo, desistimos na hora. 
É uma cidade que lembra outras como Itacaré, Morro de São Paulo, Praia do Forte, Praia do Francês e a Praia da Pipa. A sensação de sossego e de preguiça impregna ao chegar e se instalar. O ritmo do viver fica mais saboroso. Olhem este anexo a uma barraca de praia. Depois da refeição, você pode se deitar em uma das redes, com as ondas do mar roçando o fundo da cabana.

 

Saímos caminhar pela praia com areias fofas. Algumas barracas rústicas e grandes dominam o comércio dos banhistas e estão concentradas num mesmo espaço. Uma delas recebe os turistas que chegam de ônibus e vans vindos em pacotes de turismo de várias cidades e estados da região. A maioria se instalam em cadeiras a beira mar e dali não saem até a hora da partida. Muitos vão embora sem conhecer os pontos mais bonitos e visitados da região. 
Existem muitos pontos de rara beleza na região. Com guias e bugues é possível visitar lugares mais distantes e a pé, num raio de 5 km, também se encontram belas paisagens que merecem ser visitadas. O bugues fazem dois passeios padronizados pela região. Um de uma hora a 140 reais e outro de 4 horas a 250 reais. Nos trajetos passam por dunas, lagoas, esculturas na areia, falésias beira mar e aventuras como descida radicais nas dunas com os bugues e com carretilhas descendo montanhas de areia e terminando dentro de um lago. 

 

 

Encontramos um oásis no caminho e a água para o turista brincar estava limitada a uma mangueira. Com a falta de chuvas as lagoas secaram e o oásis é agora onde o turista pára durante o passeio somente pela lanchonete sem as brincadeiras no antigo lago, agora seco pela falta de chuva. O rapaz disse “faz tanto tempo que não chove que o meu filho já esta andando e falando e ainda não viu chuva na vida”. 
Em uma das descidas radicais um fotografo fica bem posicionado e tira fotos que são oferecidas a 15 reais mas você pergunta o preço novamente e ele baixa para 10 reais, um CD com 15 fotos sequenciais. 

 

 

A pousada que estamos é bem familiar e os hóspedes ficam próximos a piscina onde tem cadeiras, mesas, poltronas, tv, café na garrafa, currasqueira, brinquedo para as crianças e vira uma amizade só, com todos conversando com todos e é muito agradável. Por lá tinha um guia turístico que transporta turistas em sua Land Rover trafegando pelas praias, um trabalhador da Petrobras e sua esposa em férias, um ex dono da pousada que ainda a freqüenta 30 dias por ano, um conterrâneo de Curitiba com sua esposas e filho e outros que não conheci detalhes.  

 

Levei a moto para lavar e por lá apareceu um senhor com aparência de idoso que tinha somente 53 anos, elogiando a minha moto e dizendo que o sonho dele era ter uma moto grande. Ele tem uma motoneta de 50 cc e viaja freqüentemente pela BR, até sua chácara distante a 30 km. Ele tem ainda barracas alugadas na praia, é dono do terreno onde está o lava jato e outros terrenos pela cidade. Perguntei a ele: por que você não vende um terreno e compra a moto dos seus sonhos? Ele respondeu que tem dinheiro mas agora ainda não é hora de gastar. Lembrei ele que a vida esta passando, ele está ficando velho e que a hora dele aproveitar é agora e não pensar em juntar cada vez mais bens e depois deixar herança para que os seus sete filhos a disputem e que a consumam em pouco tempo. Ele disse que eu estava certo e pronto, como dizem por aqui. 
Caminhamos pela praia com ondas que vez ou outra refrescavam nossos pés, com pedras que formam piscinas naturais e um paredão de falésias com 5 ou 6 metros de altura, paralela ao mar formando labirintos e figuras nas areias coloridas. 

 

 

Vez em quando uma barraca com água de coco nos abastecia. Andamos 14 km ida e volta e chegamos até as esculturas nas falésias, esculpidas no terreiro da casa de um médico muito querido, que viveu por aqui até morrer, incentivou muito a cultura local e tratou dos doentes, quase sempre de graça.
Conhecemos uma família que já está na terceira geração fazendo imagens em frascos de vidro com areias coloridas. Impressionante a qualidade e a habilidade de tios, irmãos, filhos e sobrinhos que produzem a arte. Produzem o dia todo ganham pouco e tem um estilo de vida bem modesto. A arte também produz efeitos injustos no comércio. Enquanto um artista cantor fatura farturas, outros sequer conseguem uma vida digna. 

Contam que foi a avó quem estava brincando com areias coloridas das falésias e derrubou no chão e formou um desenho. Ela começou a mexer e misturar as areias coloridas com um graveto da folha do coco e assim nasceu aquela arte ainda praticada como meio de sustento da sua terceira geração. Esta arte se espalhou, outros artistas apareceram e hoje é possível encontrar um cearense lá em Curitiba fazendo a arte de desenhos com areias coloridas das falésia do Ceará. 

 

Um pescador reclamou que a marinha não facilita a pesca artesanal e incentiva outros dando credenciais para mergulhadores profissionais que chegam de outras regiões e pescam quase todas as lagostas, inclusive de dentro das armadilhas que os nativos armam para pegá-las. Não tem como competir. Eles chegam bem equipados e levam sempre a melhor parte, quando não levam tudo. Assim sendo, os pescadores da vila dos pescadores, estão deixando de pescar e procuram trabalho como guias, bugueiros e muitos começam com vendas ambulantes e se espalham pelas praias e pela cidade toda vendendo os mais diverso produtos.
Na casa onde estão as esculturas você paga dois reais e um guia te acompanha, contando a história de cada escultura. 

 

 

 

Depois da visita ficamos um bom tempo sob uma tenda feita com madeira e palhas de carnaúba na cobertura. É bonita eficaz e dura dez anos. Conversamos com pai, mãe e filho, contando histórias das nossas regiões, falando de comida, de pesca, de cultura regional, do nome das coisas, das festas e das artes. 

 

Foi um dia muito agradável pela caminhada, pelas artes apreciadas e especialmente pelas pessoas que conhecemos, ensinamos e aprendemos em uma troca ímpar que precisou ser aproveitada ao máximo. 

No hotel um banho de piscina, um jantar e mais conversas com os amigos hóspedes, a dona e a empregada da pousada.

Carnaval, fomos passar a festa do Rei Momo em Fortaleza.