//28 – MONCAYO E ZARAGOZA – ESPANHA

28 – MONCAYO E ZARAGOZA – ESPANHA

Saímos de Bilbao com destino ao Parque Nacional de Moncayo, onde alugamos um apartamento na pequena cidade de Vera de Moncayo. 

Procuramos trafegar por estradas secundárias, muito bem preservadas também, para passar por dentro das vilas e pequenas cidades. As rodovias pedagiadas são excelentes e se ganha tempo no percurso mas, como não estamos com pressa e a ordem é conhecer, insistíamos em rodovias secundárias enquanto o GPS nos levava para a pedagiada, apesar de estar programado para evita-las. Driblamos ele e por dezenas de quilômetros conseguimos, depois fomos para a pedagiada, quase sempre paralela às secundárias.


Chegamos em Vera de Moncayo, cidade que escolhemos para ficar por conta das atrações naturais que existem na região. Chegamos na cidade pequena, pequena não minúscula. São apenas 398 habitantes. Olha onde fomos parar.

O prédio novo, com um apartamento espaçoso, limpo, com todos os utensílios para bem nos atender e um carro vermelho na porta.

Não tem porteiro e me senti um pouco enganado. Pelas fotos e pelo nome do imóvel, pensei que iríamos ficar na zona rural. O prédio se chama Moncayo Rural.

Em nossa chegada a proprietária do apartamento nos esperava para as orientações e receber o aluguel. Quando fui pagar ela me disse que não aceitava cartão e eu tive que pagar com dinheiro. Não gostei por que pensei que já havia pago na reserva e ela me disse que eles preferem receber na hora da chegada para não pagar a taxa da administradora. Tentei mudar a situação e ela foi irredutível. Resolvi não mais discutir e paguei em dinheiro.

Nosso drama naquela cidade tinha acabado de começar.

Ficamos felizes com a qualidade do apartamento e, arrumando a casa, a Ade foi erguer a mala, de forma nada ergonômica, e teve um lombalgia que a deixou imóvel e com muita dor. 

Como eu tenho experiência neste tipo de problema lombar, trouxe remédios que amenizam a dor, mas sei que somente o repouso cura. E assim foi. 

E nós que pensávamos em melhorar nossa forma física com longas caminhadas pelas trilhas da região, ficamos totalmente decepcionados. Na cama ela ficou a maior parte do tempo, brincando com seu Ipad, meio sem graça e sem entender o que e o por que havia acontecido isto com ela.


Eu cuidei dela, da casa, até que quatro dias depois ela se recuperou um pouco e saímos conhecer o Parque Natural de Moncayo, no sistema Ibérico, entre montanhas, sendo a maior com 2.313 metros de altura.


No caminho passamos por pequenas vilas, no meio do dia e nenhuma pessoa foi por nós avistada. Paramos em uma, no alto de uma colina, com casas e igrejas  construídas ainda na idade média. Em outra um pouco mais moderna, com casas bonitas, mas todas fechadas, passeamos sem estacionar e sem uma viva alma, sequer um cachorro avistamos.

 

Para chegarmos ao topo da montanha, passamos por florestas densas, com enormes árvores e quase ninguém pela região. A Ade comentava que parecia florestas de filme de horror e, confesso que não ficamos muito a vontade naquelas matas desertas, ainda mais depois do que eu li e conversei com moradores sobre a região, enquanto Ade ficava deitada.

Mesmo assim passeamos pelas matas e até encontramos algumas pessoas. Primeiro duas mulheres sentadas em um lugar esquisito, no meio do nada, somente mato por todos os lados. Depois uma senhora e um garoto, sentados em um banco, também com mato por todos os lados. Paramos e pedimos informação sobre o que visitar na região. A senhora basicamente respondeu, “nada”. O garoto nem olhou. 

Eles estavam lá, no meio do nada, sem fazer nada, responderam nada e nós nada de ficarmos por lá, fomos embora, sem conhecer nada do que existia.


Subimos por um caminho e descemos por outro, sempre por estradas asfaltadas e desertas. Saindo da floresta, chegamos bem próximo de enormes montanhas, formadas por pequenas pedras e terras, que pareciam querer desabar e chegavam até assustar. 

 

 

 


Passando por mais algumas cidades, notei que nas portas, quase todas, haviam cortinas com fios de metal ou de plástico grosso. Perguntei o motivo e a dona de uma padaria me disse que era apenas um costume. 

Acho que talvez é para evitar a entrada de mosquitos, que por sinal, são muitos por aqui. Eles são meio bobos é muito fácil acertá-los, caçamos vários dentro do nosso apartamento. Ou seria para elas não entrarem?

Enquanto Ade esteve de repouso na cama, eu sempre que tinha oportunidade, perguntava mais sobre elas aos moradores, li um pequeno livro que encontrei na entrada do prédio e fiz pesquisas na internet. 

Alguns moradores responderam em tom de brincadeiras, outros desconversavam na hora e eu achava muito estranho os resultados das minhas investigações.

A estranha região possui indícios de civilizações da era glacial e já desvendaram fatos que remontam de bem mais de 2 mil anos atrás. Dizem que por aqui, havia uma metrópole celta e que depois pertenceu aos romanos. A desaparecida cidade foi queimada até o chão por mais de uma vez. 

Ouvi de um morador que os incêndios foram provocados por elas e que elas ainda vivem, não vivas, rondando as montanhas do Moncayo.

 

Ainda no caminho de volta da floresta, uma cidade chamou nossa atenção, por estar deserta e  bem em baixo de uma montanha de pedras pequenas e terras. Parecia que a qualquer momento poderia ser soterrada.


Seguimos pela estrada sinuosa e sinistra, até chegarmos em Tarazona, uma cidade maior na região, com muito mais lendas para contar.

Tarazona tem relatos de animais e mulheres virgens sacrificados em rituais satânicos, contam da existência de uma cidade subterrânea e que aqui viveu o padre Ambrósio, que podia paralisar e ler os pensamentos de qualquer pessoa e que tinha um pacto com o demônio. 

Contam também de homens gigantes, com quatro metros de altura, que habitavam a região, inclusive Hércules aqui esteve para medir forças com eles. Hércules matou um leão, o gigante Caco, matou uma vaca enorme e Tubalcaín, outro gigante do Moncayo, arrancou uma enorme árvore e a usou como bastão, todos usando somente as próprias mãos. Ao final os três ficaram amigos.

Esta é a figura mitológica do deus grego Hércules. Os gigantes de Moncayo não foram homenageados, não eram deuses, mas contam que o esqueleto de um deles foi descoberto por moradores.

Tarazona foi também uma sede do tribunal da inquisição. Muitas pessoas foram decapitadas e, uma delas ficou na história. Após o corte da guilhotina, a cabeça não caiu no cesto, saiu rolando pela praça e, quando parou, disse três vezes em tom alto: “credo, credo, credo!”. Por isso, foi absorvido de todos os seus crimes, mas morreu, é lógico.

Voltamos para casa, eu cada vez mais intrigado, curioso e o carro vermelho ainda estava lá, no mesmo lugar. Não vimos nenhum outro hóspede, no entanto, móveis eram arrastados à noite, de madrugada e logo pela manhã. Às vezes ouvimos vozes e eu dizia para Ade que eram outros hóspedes.

Com pura intuição, Ade várias vezes fez comentários sobre a estranheza do apartamento, dizia que parecia que alguém a estava observando o tempo todo, que sentia uns arrepios e que o local era muito estranho. Estaria ela com premunição ou seria puro sexto sentido feminino?

Eu sabia de coisas da região e não comentei com ela para não aumentar sua preocupação e evitar a instalação do pavor, eu queria saber mais.

À noite acho que elas resolveram brincar comigo também. Noite de lua brilhosa, até fiz uma foto dela, silêncio sepulcral, eu estava calmo, tudo transcorria muito bem, até que fui deitar e foi muito desagradável. Comecei a sentir fortes dores de cabeça e meu coração ora disparava ora parecia parar, imitando um verdadeiro batuque.

Já fiz vários exames cardiológicos, inclusive antes desta viagem e tudo sempre deu resultado normal. Confesso que fiquei preocupado. 

Peguei um aplicativo que tenho no celular, que mensura os batimentos cardíacos. Incrível. Pensei que estava com defeito e fiz a medição na Ade, tudo certo, o coração dela batia em média 65 vezes por minuto. O meu as vezes marcava 140, as vezes marcava 30 batimentos por minuto. Pensei comigo: nunca foi assim e isto só pode ser sacanagem delas

Acreditando ou não se elas existem, em forma de reza, bati um bom papo com nosso amigo e companheiro de viajem, Jesus Cristo e, aos poucos tudo começou a voltar ao normal.

Acho que elas nos deixaram em paz. Aqui e em muitos lugares no mundo todo, fazem festas em nome delas. Dizem que é só brincadeira, mas não deixa de ser um pouco de crença. 

Os moradores não as temem mas também não abusam. Um homem me contou que vários escritores já passaram por aqui em busca de informações sobre elas, inclusive um brasileiro, Paulo Coelho. Estou somente escrevendo o que ele me disse. Pesquisei na internet mas não encontrei mais informações. 

No dia seguinte sem o batuque do meu coração, também com a Ade bem melhor das dores lombares, fomos até Zaragoza.

Novamente seguimos por estradas secundárias conhecendo a vida nas pequenas vilas que não tinham o menor sinal de vida. Tudo é muito bonito, os campos são bem cuidados, o asfalto é muito bom, muita plantação de uvas e azeitonas, mas pessoas mesmo, praticamente nenhuma.

Chegamos em Zaragoza e ficamos surpresos com o encanto da cidade. Belas ruas, belas calçadas e fantásticas igrejas. 

Esta é uma das pontes que passa sobre o Rio Ebro, que corta a cidade, um dos maiores rios da Espanha, que desagua no Mediterrâneo, formando o delta do Ébrio.


O rio é fonte de recursos para dezenas de municípios e, em épocas de cheias, quando acontece o degelo dos Pirinéus, é também o grande pesadelo para alguns povoados. Ele percorre 930 km dentro do território espanhol e, em muitos locais ele foi desviado para amenizar os efeitos das cheias. 

Projetos excelente que poderiam ser copiados pelo Brasil e ser aplicado no Vale do Itajaí em Santa Catarina e na região de União da Vitória, no Paraná, por exemplo.


Na avenida da Independência uma obra que privilegiou pedestres e tornou ainda mais bonita a região. Ao longo da avenida, todos os prédios possuem um passeio coberto. Bom para lojistas e para os consumidores, que em dia de sol ou chuva, ficam protegidos. 

Só não é bom para o consumidor na hora do almoço. Todas as lojas fecham e a cidade fica deserta, dizem que todos dormem.

O arco na arquitetura esta por todos os lados. O mais famoso é o Arco del Deán, que escora uma edificação sobre uma rua. Fomos até lá guiados pelas placas que orientam direções dos pontos turísticos. Não descobrimos o que aconteceu neste local, nem quem fez ou quando foi feito. Só soubemos que ele é um ponto de referência, famoso na cidade.

As praças espaçosas são ornamentadas com fontes e monumentos que encantam ainda mais o passeio. Em alguns monumentos podemos subir para fazer fotos.

 

 

A cidade é cenário para muitas fotos. Em cada rua, cada praça ou monumento dá vontade de registrar. 

Conhecemos várias igrejas e cada uma com sua espetacular arquitetura, algumas com imponente torres, onde podemos ficar horas a observar.

 

Nesta igreja a torre se inclinou, tornando a vista de frente uma atração a mais. O acesso esta interditado, mas ela continua em pé. Ao vivo se nota melhor a inclinação.


Passamos por um museu com um sítio arqueológico, bem no centro da cidade, entre os prédios residenciais. A descoberta foi coberta e o público pode passear pelas ruínas de um teatro romano na sombra ou abrigado quando chove.

 

Paramos para o almoço e depois andamos despreocupados, ou melhor, preocupados em não forçar muito a condição física da Ade. 

Fizemos uma volta pelo centro, até chegarmos na Basílica de Nuestra Señora del Pilar de Zaragoza, maior templo barroco da Espanha. Por dentro, somente alguns lugares podem ser fotografados.

Reza a lenda que a basílica fica no exato local onde Maria, mãe de Jesus, teria surgido ao apóstolo Tiago, quando ele pregava pela Península Ibérica.

 


Sem conhecer quase tudo como sempre fazemos, preferimos voltar para casa e o carro vermelho ainda estava lá, sem a menor aparência de ter se movido.

Noite tranquila e acho que elas, após a interferência de Jesus, não querem mais brincar. Ade ficou boa e não tive mais batuque coronário e a noite foi de sono reparador.

Fomos visitar o Monastério de Veruela que, depois do Parque Natural, é o que mais atrai turistas para a pequena cidade de Vera de Moncayo. 

Uma fantástica construção medieval, de uma arte admirável em sua arquitetura. Por fora suas muralhas possuem várias obras esculpidas nas paredes.

A entrada impressiona com quatro carreira de árvores centenárias, em um jardim que começa no portão da entrada e termina na igreja. É um convite para um pose fotográfica.

Entre os altos muros, uma igreja com pé direito que talvez chegue a dez metros, com colunas que se entrelaçam no teto por belos arcos. 

Dezenas de outros cômodos que serviam de quartos, refeitórios e capelas de oração, hoje ficam abertos para visitação.

 

 

Vários túneis, poços e portas são lacrados, ficando somente a imaginação do que ali pode existir ou para que serviam no passado. 

O chão da igreja maior e em vários cantos, estão guardados restos mortais de importantes que ali viveram. Alguns túmulos ficam no escuro, que chega dar medo, outros com iluminação artificial e outros recebem o reflexo da luz do sol, colorida pelos vitrais.

 

Os trabalhadores que construíram algumas paredes, não fizeram um bom trabalho, mas equipes de historiadores comandam sua recuperação em vários pontos. 

Teriam eles ingerido muito vinho ao construírem esta parede? Provavelmente sim. O vinho por aqui é bebida diária do passado ao presente.

Depois visitamos um museu fantástico, junto ao Monastério, tudo muito bem organizado que conta a história do vinho.

Amostras dos equipamentos rudimentares para o fabrico do vinho e a história dos vinhos pelos tempos, muito bem contada.


Contam a forma de identificar, de servir e de tomar a sagrado líquido, por meio de desenhos, cartazes, filmes, fotos e utensílios antigos e atuais.

A história do vinho remonta de pelo menos 6.000 a.C., e quem o fabricou pela primeira vez, é ainda uma incógnita. Existem historiadores que defendem que o vinho veio desde o tempo de Noé, inclusive com citação bíblica, outros dizem que o hábito de beber a uva fermentada veio da Georgia e até a mitologia tem sua citação e elegeu Dionísio como o deus do vinho. 

Na Europa começou a ser produzido em maior escala, espalhou pelo mundo todo e, ainda hoje, o vinho é uma das bebidas mais consumidas, por todos os povos, desde muitos séculos e há de perdurar.

O museu conta também o papel do vinho, desde os tempos remotos até hoje na sociedade e em cerimonias religiosas e expõe detalhes desde o plantio até a comercialização da bebida.


Para degustar um bom vinho, importante salientar que para muitos, o bom vinho é aquele que você está bebendo e, para saborea-lo é preciso usar os cinco sentidos. 

  • Olfato para perceber o aroma;
  • Paladar para perceber o sabor;
  • Tato para perceber a temperatura;
  • Visão para perceber as cores, e;
  • Audição para ouvir o tilintar das taças na ocasião do brinde.

Se bem que, o brinde veio bem depois do vinho, começou no século XVI, na Inglaterra, justamente para misturar o vinho e realçar seu sabor. Hoje o brinde significa desejo de saúde, paz, alegria ou para desejar o bem a alguém, como sempre diz nosso amigo Demario, levantando sua taça: “Um brinde às nossas esposas e que elas nunca fiquem viúvas”.

O vinho é bom e muitos provam que faz bem para a saúde. Mas é fundamental beber sempre com moderação. Dizem que um porre de vinho é inesquecível.


Hora de partir. Mesmo com as possíveis interferências delas, conseguimos visitar os principais pontos turísticos do Moncayo e da região. Só ficamos sem as nossas caminhadas pelas montanhas macabras, quem sabe ainda bem.

Guardei segredo por alguns dias depois que saímos do Moncayo, para que Ade não se assustasse. Contei a ela e posso dizer que talvez, quem sabe, provavelmente, é possível que elas, as famosas, temidas e adoradas bruxas, estavam a nos importunar ou a brincar conosco.

As bruxas viveram nesta região e era aqui no Moncayo onde faziam seus encontros macabros. Toda a população conhece um pouco da história delas e reconhecem que elas habitaram a região por milhares de anos.

Boas ou más, continuam vivas na memória das pessoas e nas lendas da região da Serra dos Pirineus, onde ficam as montanhas ainda assombrosas do Moncayo.

Agora, cá entre nós, apesar desta escrita eu não creio que foram as bruxas que nos importunaram e tudo não passou de simples coincidências. Nosso azar com a saúde nada tinha a ver com o misticismo da região. A nossa crença em Deus sim, é verdadeira. 

Ao nosso clamor, Jesus Cristo intercedeu eliminando o batuque do meu coração e apressando a melhora da Ade. Ele assim nos ensinou…

Em Moncayo o medo aflorou e o medo é bom. É na verdade, o único sentimento que nos dá a certeza de que estamos vivos. Com medo aumentamos nosso sentimento de segurança, nos enchemos de cuidados, nos voltamos ao criador, não abusamos da sorte e, quando ele passa, a sensação de prazer é quase incomparável. 

Moncayo, foi um prazer passar alguns dias por suas bandas, mas não queremos voltar. Depois que contei tudo a Ade, ela não quer comer nem as azeitonas que trouxemos de lá.

Quanto as bruxas, desejo que continuem a encantar e despertar o medo nos amantes desta crença, que assusta e diverte as pessoas através dos tempos e que parem de incomodar os turistas. Que nos deixem curtir mais à vontade as belezas que encantam a região de Moncayo.

Quanto ao carro vermelho, nada haver, quando saímos ele ainda estava lá.


Vamos para Valência, retomar energias no Mar Mediterrâneo.