//31 – CARRETERA AUSTRAL, POR TERRA E POR MAR

31 – CARRETERA AUSTRAL, POR TERRA E POR MAR

A Carretera Austral, no Sul do Chile, entre Puerto MonttVilla de O’Higgins, com 1.240 quilômetros é um grande desafio, repleta de perigos por conta da topografia natural e pela falta de pavimentação de grande parte da conhecida Ruta 7. Mas é também um encanto que chama aventureiros de todo mundo, que chegam para conhecer maravilhas naturais.

O motorista não pode apreciar a bela paisagem que se descortina a cada 100 metros, pois tem que estar atento para não cair num lago ou num precipício e ainda se preocupar com os buracos onde quer passar, torcendo para nenhuma pedra rolar da montanha.

Seguimos pela Ruta 265 até entrar na Carretera Austral, com muito rípio, buracos e solavancos. Paramos para conhecer as Capelas de Mármore, em Puerto Rio Tranquilo, rumo a Coihaique, no centro sul da Patagônia chilena.

Até a Villa Cerro Castilhos rípio, depois asfalto, sempre passando por paisagens de tirar o fôlego, com montanhas gigantes, cobertas por árvores coloridas, cercadas por rios que escorrem pelas pedras e cachoeiras exuberantes.

Na cidade de Coihaique fomos até uma concessionária Mercedes Bens substituir uma das baterias que parou de funcionar, compramos agasalhos e brinquei de mecânico na oficina, que gentilmente o gerente me emprestou para substituir uma das conexões de água que se rompeu na estrada de rípio.

Coihaique é cercada de montanhas de topo gelado que, quando sopra o vento, gela toda cidade, mesmo com sol.

A cidade não tem muitos atrativos mas é onde os viajantes da Carretera Austral param para fazer reparos, descansar e fazer compras.

Passeamos pelo centro, fizemos compras no supermercado, pegamos dinheiro no caixa automático como se fossemos correntistas, passeamos pela rua pedonal, visitamos várias lojas, feira de artesanatos e foi na cidade que descobrimos uma alternativa para nos livrarmos do terrível rípio.

Ficamos hospedados em um pequeno camping, numa chácara onde já foi residência de um alemão, construída na década de 20. Hoje seu bisneto mora na velha casa e aluga o quintal para viajantes. Oferece um bom atendimento, banho quente, cozinha e um pomar com pêras, maças e framboesas para usufruto dos hóspedes.

O camping fica ao lado de uma das poucas atrações da cidade, batizada com Pedra do Índio, mas que eles chamam de pedra do suicídio. Do alto da pedra com um rosto que perece ser esculpido, muitas pessoas já se lançaram em busca da morte e encontraram.

A cada momento chegava um novo hospede no camping e, com alguns, fizemos amizades e trocas de experiências de quem está na estrada.

Mas como nos livramos do rípio?

Foi em uma agência de turismo que descobrimos uma alternativa para chegarmos a Puerto Montt, onde começa a Carretera Austral, embarcados em um navio.

Compramos as passagens e seguimos para o embarque na cidade de Puerto Cisnes, às margens de um apêndice do Oceano Pacífico, apreciando mais um trecho da Carretera pelo asfalto.

Paramos numa bela cachoeira com o nome da Virgem Maria. Fizemos fotos, filmes e confirmamos nossos votos com a oração à Santíssima.

Passamos o dia na cidade e, como não tem camping, tentamos dormir em uma das muitas pousadas da cidade, até que encontramos um posto de combustível, onde o frentista nos ofereceu um excelente local e uma fonte de energia sem custo algum.

Mais saiu caro

Estacionamos e saímos para comer um salmão, direto da fonte. Fomos atendidos por uma simpática e adorável “infanta chefe de cozinha”, que nos recebeu, escolheu a nossa mesa, perguntou de onde viemos e o que queríamos comer, tudo sob a supervisão direta da mãe.

A pequena chefe de cozinha Paula, com apenas 5 aninhos, ficou um bom tempo conversando com a gente, tirou foto com Ade e fez suas próprias fotos. Quando foi fazer um filme comigo, ensaiou antes e ditou tudo que eu deveria dizer, inclusive os gestos que eu deveria fazer ao final do filme. Ela esqueceu os outros cliente e lá ficou até sua mãe chamar.

Voltamos para nossa casa, depois de uma boa refeição regada a cerveja artesanal picante, fabricada na cidade, um bom banho e fomos dormir, donos do pátio do posto.

Já no sono profundo, acordamos com o

maior susto da nossa expedição

Não só desta, mas de todas. Um enorme estrondo na lata da Caca, bem na nossa cabeceira nos fez levantar num salto único para ver o ocorrido. Ade gritou “Ai meu Deus” e minhas primeiras palavras foram:

øπå, @®*#*, ƒ§µ+

Um pai irresponsável chegou no posto e deixou seu filho dentro do carro e o danado acionou a ignição e atirou o carro contra a lateral da Caca, que provocou o tremendo estrondo. Desci apressado perguntei o que houve e o proprietário, assustado, pedindo desculpas, contou o corrido, dizendo que quase foi atropelado pelo próprio carro.

Depois de muita conversa, eu querendo receber o prejuízo, descobri que o cara era o dono do posto onde eu estava hospedado e usando sua eletricidade. Percebi que o frentista ficou numa terrível situação pois ali não era local para estacionar e ele deixou.

Diante do fato

Nem pensei em cobrar o estrago, para não complicar o frentista que foi muito amável com a gente antes do ocorrido. O dono do posto pediu desculpa várias vezes e fez a criança também se desculpar.

A moça do posto ficava o tempo todo me olhando.

Foi muito assustador o barulho da batida e só depois percebi que eu desci de camiseta e cuecas de pernas longas. Nem quero saber o que ela pensou.

Acordamos às 8 horas e seguimos para o embarque no navio que nos livrou do rípio. Pulamos um trecho da Carretera Austral, mas não fomos privados da grande beleza da região. Foram 20 horas navegando até o desembarque, em Puerto Quellon, na Isla Grande de Chiloé.

O caminho percorrido pelo navio também nos ofereceu belas visões, seguindo por águas calmas, entres dezenas de ilhas e 4 paradas pelo caminho.

O tempo ficou nublado mas foi possível apreciar belas paisagens, com enorme cachoeiras e o belo espetáculo do sol se ponto no horizonte do Oceano Pacífico.

Durante a viagem ficamos dentro de casa, apesar do navio oferecer uma boa estrutura para os viajantes. Em casa fizemos almoço, tomamos vinho e Ade fez um delicioso arroz doce com receita portuguesa.

Assistimos filme, conversamos com a família com o sinal da SkillSIM, nossa patrocinadora que oferece sinal em mais de 160 países, até o desembarque na Isla Grande de Chiloé.

Trafegamos pela ilha e parecia que não era mais no Chile. A paisagem mudou com árvores diferentes, casas em palafitas, muitos lagos e igrejas coloridas feita com madeira.

Nas praças e na beira das principal rodovia que corta a ilha de norte a sul, escultores fazem do acostamento seus ateliês.

Entramos em mais uma barca, agora deixando Chiloé, entrando em Puerto Montt, onde fica km 0 da incrível e odiada Ruta 7, batizada de Carretera Austral.