//5 – PRIMEIRA FRONTEIRA DA EXPEDIÇÃO

5 – PRIMEIRA FRONTEIRA DA EXPEDIÇÃO

Na nossa primeira divisa internacional a bordo da Caca, passamos pela aduana brasileira, sob olhares atentos dos agentes, mas não fomos parados.

Na agitada cidade do Chui, onde uma avenida divide os dois países, que na verdade é tudo junto, encontramos muita gente afoita procurando tudo pelas lojas com preços de zona franca. Abastecemos a Caca com diesel, gás de cozinha, água mineral e visitamos algumas lojas, sem comprar nada.

Ficamos pouco. O movimento e o calor nos espantou. Seguimos rumo à próxima aduana, já em território uruguaio.

Fomos até o guichê e apresentamos nossos documentos pessoais e do veículo. O agente perguntou quantos dias iríamos ficar, e se tinha o Seguro Carta Verde, mas nem viu.  Perguntei se seria necessário fazer uma importação temporária do veículo e ele respondeu que somos países irmãos e não tem burocracia. Devolveu os documentos, carimbou os passaportes e nos deu algumas dicas do que visitar no País dele.

Seguimos por um bom asfalto, quando derrepente… Opa! Uma pista para aviões em plena rodovia. Sim! A pista pertence ao exército uruguaio e, nos pousos e decolagem, fica fechada para os carros. Bom aproveitamento de recursos e espaço.

A primeira parada no país irmão foi em Santa Teresa, onde existe uma fortaleza em forma de um pentágono irregular, edificada pelos portugueses por conta dos constantes confrontos com os espanhóis. As batalhas no nosso continente entre os dois países vizinhos na Europa, era muito comum nos anos que seguiram ao descobrimento. Portugueses e espanhóis eram e ainda são como gatos e ratos, hoje em dia a rivalidade se limita ao futebol e nas chacotas que um faz do outro.

Logo em seguida á tomada dos espanhóis os portugueses retomaram a região, que foi anexada ao Brasil com o nome de Província Cisplatina, até que a imponente diplomacia britânica interferiu na região e influenciou na Convenção Preliminar de Paz, de 1.828, quando foi criado o Estado Oriental do Uruguai.

O que ficou dos portugueses foram algumas obras e dos espanhóis o idioma. O certo é que os três países europeus envolvidos, saquearam tudo que conseguiram.

A estátua é uma homenagem justa a um nativo que chegou ao comando das batalhas pela independência da região, General Leonardo Oliveira, grande responsável pela expulsão dos invasores europeus.

A fortaleza já foi quase toda tomada pela areia, já foi presidio e hoje está classificada como Monumento Histórico do Uruguai. As instalações estão bem conservadas e abertas à visitação pública, onde são apreciadas uma coleção de armas e maquetes das fortalezas históricas do Uruguai.

No centro da Fortaleza fica um paiol de pólvoras e armas, comum nos fortes da época. Por ser o alvo principal dos inimigos, o paiol era sempre bem protegido. Parte da construção fica enterrada no solo e o telhado é à prova de bombas.

Além da Fortaleza, a reserva abriga também um camping bem próximo do mar, com uma boa infraestrutura, vigiado pelos soldados do exército. Não precisa mais.

A vida no camping é muito fácil para fazer amizades. Lá conhecemos um casal de argentinos que viajam de motorhome, uma menina que viaja sozinha de mochila, com poucos recursos mas não deixa de viajar sempre que pode, alguns brasileiros que mochilam pelo Uruguai e uma família argentina com quem nos divertimos muito, ensinando palavras nossa e aprendendo as deles.

Os três que estão na foto são os filhos do casal ao fundo, na barraca, acho que com vontade de entrar na rodinha também. O Santine, o menor de camisa branca, até aceita que o Messi é um bom jogador futebol, mas é mesmo fã do Neymar.

Quando passou um viajante de bicicleta, Ade ofereceu uma laranja ele parou e aceitou imediatamente. Depois apareceram seus dois amigos, que também ganharam laranja, água gelada e um bolo feito pela Ade. Os três são professores na cidade de São Paulo e resolveram encarar uma pedalada, durante as férias escolares, até Buenos Aires.

Seguiram agradecidos com a dádiva da água gelada.

Pelo caminho passamos por vários ciclistas que encaram grandes distâncias somente para pedalar ou talvez por economia, mas curtem os prazeres da viagem, seguindo a filosofia escrita nesta frase:

“La vida es como montar en bicicleta. Si quieres mantener el equilibrio, tiene que seguir avanzando”

No camping de Santa Teresa tem todo tipo de veranista, a maior parte deles viajam com barracas e chegam novos hospedes a todo momento vindo de carro, de moto, de bicicleta e muitos a pé, vindos de carona com pesadas mochilas nas costas, mas não deixam de vir.

No camping tem uma homenagem aos mochileiros, com uma bela escultura feita no tronco de uma árvore cortada.

Chegam também de motorhomes, que chamam por aqui de casa rodante, pequenos, enormes, novos e antigos, alguns acho que velhos mesmos.  A maioria dos que chegam da Argentina ou aqui do Uruguai são montados no fundo do quintal, pelos próprios donos. No Brasil isto não é permitido. Tem que ser com a participação de empresas transformadoras, que cobram às vezes, mais do que valem.

Sempre pela manhã nosso programa é conhecer a região a pé, aproveitando também para manter o bom condicionamento físico, sem preguiça de enfrentar o sol, pisar nas águas geladas, caminhar pelas trilhas em volta do camping, tomar sol e se arriscar nas pedras à beira mar.

À noite uma fogueira para aquecer e, como diz Ade: só falta a batata doce para assar. Esta fogueira ficou muito próxima da Caca e tivemos que apagar. Ade sumiu no meio da fumaça que surgiu depois de um balde d’água atirado no fogo. O risco estava sob controle, mas já combinamos que as próximas serão um pouco mais afastadas.

Dia seguinte, levantamos acampamento e seguimos em frente, por que nossa meta era chegar em Punta Del Este para passar a virada do ano.