//43 JALAPÃO – TO

43 JALAPÃO – TO

 

A bordo de um caminhão, preparado para expedição, saimos do hotel em Palmas, rumo ao Parque Nacional do Jalapão.

 
Dia maravilhoso, saímos para um percurso de 200 km, pelo asfalto, passando por diversos povoados. 

Paramos para um lanche e, na cidade de Ponte Alta do Rio, paramos para almoçar e trocar de caminhão. 
 

 

 

 

O outro caminhão é mais robusto, preparado para andar na areia, cascalho, subida, descida e até por dentro do rio. Viajamos por mais 120 km, agora sem asfalto. 

No teto da carroceria tem duas bancadas, onde ficamos em contato ainda maior com a natureza, apreciando e fotografando a beleza do cerrado.

 

 
A vegetação alta, média e rasteira se alternam em extensas áreas, dando a impressão de lavoura mas é cerrado, terra quase sem nutrientes para alimento dos animais. Quase não se ouve chiados. O gado em algumas fazendas, apesar de estarem no meio de tanto verde, são magros por que poucos matos lhes servem de alimento.

Pelo cerrado existem vários tipos de capins, diferente de outras regiões e o dourado é o mais valioso de todos.

Jalapão é a terra do capim dourado. Dizem que só nascem por aqui e na época da colheita acontece uma verdadeira caça aos pés maduros. Grande parte da população foi treinada para fabricar peças artesanais com o capim dourado, que é vendido no Brasil todo e tem boa aceitação por parte dos compradores de artesanato. 

Com o capim, fazem brincos, anéis, pulseiras, cintos, chapéus, bolsas, enfeites de geladeira, porta jóias, decoração de parede, vasos, mandalas, porta retrato e muitas outras peças que cada artesão caseiro inventa.

 

Pela estrada afora, a caminho do acampamento, diferentes paisagens amenizam o desconforto do caminhão andando na terra. 
 
Paramos para um merecido banho de cachoeira e depois para o lanche em plena montanha de cascalhos. Uma caminhonete de apoio segue o caminhão o tempo todo.

 

Chegamos no acampamento, nos instalamos em barracas de lona e fomos tomar banho de rio até o comando central avisar que o jantar estava pronto.  

Os avisos são feitos pelas badaladas de um ferro contra uma roda de arado, no qual eu fui o batedor oficial um dia. São três fortes batidas cada aviso.

 
A comida jalaponesa é feita por homens contratados pela empresa e são praticamente da mesma família, vindos de um quilombola da região. 

Após o jantar o guia aparece para contar lendas da região e fazer as recomendações do passeio no dia seguinte.
 
Fomos dormir na barraca totalmente escura, onde os olhos abertos ou fechados dão a mesma sensação. 

Durante o dia o acampamento, bem ao estilo, tem barracas com sanitário, quarto e varanda. Em volta, chuveiros coletivos, redário, barracão do restaurante, horta, prainha de areia, locais de descanso e trilhas para caminhadas na mata.

 

 

 

 
O nome Jalapão, teve origem em um hábito regional, de quando os antigos tomavam a cachaça misturada com uma planta chamada Jalapa, para depurar o sangue. Algumas pessoas diziam que para ficar melhor ainda, precisava de um jalapão, que era uma dose maior, certamente, pelo efeito da cachaça e não propriamente da depuração do sangue. 
 
Assim surgiu o nome do Parque Nacional do Jalapão, que abrange oito pequenos municípios, gerenciado por vários órgãos do governo e ONGs de preservação da natureza, que não se entendem muito bem na preservação do ambiente, mas lutam muito para angariar cada vez mais recursos para cada um. 

Está é a Jalapa, apresentada pelo nosso guia.

 
 
Ainda hoje ocorrem muitas brigas e até mortes na ocupação de terras nesta região. Muitos donos de cartórios falsificaram documentos em nome de poderosos, que disputam as terras com os nativos. 
 
Uns tem documentos que, mesmo sendo falsos, foram registrados em cartórios e outros tem a vida de gerações de seus antepassados que sempre moraram por aqui. Os poderosos que tem a posse dos documentos, continuam lutando pelos seus direitos, oficializados às custas de propinas aos cartorários. A briga continua, mesmo depois de provadas as falcatruas e até da prisão de alguns cartorários falsários. Muitos dos poderosos residem no Sul do País e cada um tem documentos de dezenas de milhares de hectares.

 

Depois de um breve treinamentos de como remar e se equilibrar no caiaque, saímos para uma descida de 2 horas pelo rio abaixo, com correntezas leves e médias, numa aventura inesquecível para nós que nunca tínhamos feito canoagem. 
 
Ao final da descida estava o caminhão para nos trazer de volta até o acampamento. 
 
 

 

No almoço novamente a comida jalaponesa, servidas em vasilhas de madeira. Depois do almoço um belo descaso no redário, onde o silêncio e a sensação de descanso toma conta por completo. 

Saímos com o caminhão, agora para visitar as dunas de areias douradas e as lagoas formadas com águas da chuva, mornas e transparentes. 

 

 

 
Aguardamos o pôr do sol em cima de uma das dunas douradas, onde ficamos admirando flores diferentes e pulando morro abaixo nas areias macias. 

 

 

 

Voltamos ao escurecer e, numa baixada com um alagado, o motorista parou e desligou as luzes para a gente observar o piscar dos vagalumes. Eram milhares deles, todos funcionando. No céu sem nuvens, milhões de estrelas.

O cenário nos remeteu a uma viagem mental. A quantidade de pontos brilhantes parecidos, nos levaram a imaginar se eram estrelas caídas  na mata ou vagalumes que subiram ao céu. 

Naquela bela noite, a lua majestosa descansava em seu leito celestial.

 

Chegamos no acampamento, um belo banho em águas quentes no chuveiro coletivo, aquecidas pelo sol. Aqui não tem televisão e o gerador só alimenta pequenas luzes de led. O restante da iluminação noturna e feita com candeeiros que queima óleo Diesel a noite toda.
 
Após o jantar o guia se aproxima e começa a detalhar o passeio do dia seguinte e conta mais lendas e causos da região. Ele contou estórias de horror que aconteceram no acampamento, como o aparecimento de animais ferozes e fantasmas que aparecem por aqui. A conversa assustou e eu pedi para ele parar de contar se não nós não conseguiríamos dormir a noite e foi o que aconteceu. No dia seguinte houve reclamações de insônias e perturbações. 
 
No acampamento tem várias gatas que vivem ali para espantar outros animais do local e uma delas nos adotou.  Ficava o tempo todo em nossa barraca e se esfregava em nossas pernas. Quando tentávamos passar a mão nela, o instinto selvagem aparecia e, mesmo na brincadeira, ela machucava com suas unhas e dentes afiados. De aparência caseira, era na verdade uma fera nada domesticada.
 
 
As atracões principais do Jalapão são distantes, por estradas rurais que merecem manutenção. Hoje, foram 60 km até a primeira parada. Depois de uma hora e meia saculejando no caminhão, conhecemos e brincamos  no fervedouro. 
 
No trajeto o banheiro feminino fica atrás do caminhão e o masculino na frente, cada um escolhe o mato próprio e apropriado.

O fervedouro é um buraco vazio cheio de areias em suspensão, pela pressão de um rio subterrâneo. O corpo não afunda por culpa da alta densidade da água. Ficamos boiando e não conseguimos afundar, mesmo sem tocar o fundo. Ficando em pé, a água não passa dos ombros. A água é transparente e se vê o fundo com as areias suspensas, que parece o chão mas é vazio. 

Mais 20 km para  almoçar em um acampamento montado em outra sede e conhecer e brincar em um outro fervedouro ainda maior, com vários buracos vazios cheios de areia. 

 
Paramos na Cachoeira do Formiga de águas verdes pela grande concentração de Enxofre, com temperatura agradável e uma massagem natural indescritível.

 

 
Voltamos para o acampamento, banho, jantar e mais causos contado pelo guia, desta vez sem horror. 
 
Logo cedo o caminhão levou até o pé de um morro muito alto e uma caminhada de 8 km até o topo, por trilhas de pedras soltas e os perigos dos animais que por ali habitam. 

 

 
Do alto do morro a paisagem é esplendorosa e a visão alcança dezenas de quilômetros, num horizonte onde a terra se gruda ao céu.

 
Tarde livre para o banho de rio, que também serviu para apreciarmos uma tempestade de manga, como chamam por aqui. Em poucas horas a água despencou do céu, trazendo raios que explodiam bem próximo e trovões ensurdecedores.  Todos ficamos com medo. Naquele momento a chance de um raio atingir uma barraca era grande.

 
Naquela noite teve um lual em volta de uma fogueira para ouvirmos mais causos do guia. 
Depois da chuva da tarde, houve uma invasão de mosquito que ficaram até a noite incomodando, induzindo todos para as barracas mais cedo. 
 
Saímos cedo para visitar a Cachoeira da Velha e tomar banho na prainha de rio onde a força e a correnteza das águas, ajudam a endeusar o local. 

 
Fizemos um lanche na mata e voltamos para Palmas, terminando nossa aventura pelo safari Jalapão, em um restaurante com o jantar regado a muita conversa e selagem de várias novas amizades.