//47 PIRENÓPOLIS – GO

47 PIRENÓPOLIS – GO

 

 

Viagem tranqüila por entre montanhas e vales, até chegarmos em um trevo. Um pouco antes o GPS apagou e eu achei que deveríamos entrar a direita. Trafegamos por uns 10 km, com mais buracos do que asfalto. Perguntamos para a primeira pessoa que encontramos sobre o caminho e descobrimos que estávamos errado. Voltamos até o trevo e pegamos a estrada certa, aí sim por asfalto bom e paisagens belas. 
 
Chegamos em Pirenópolis e a saga de encontrar o melhor pouso. Visitamos algumas boas opções, cada uma delas com descontos que se sucediam, até que escolhemos uma no meio de muitas árvores, estilo rústico como quase tudo por aqui, com piscina de pedras, sauna, forno e fogão a lenha. 

 
A noite saímos para jantar numa casa de massas onde cada um faz seu pedido e escolhe os ingredientes para o cozinheiro preparar na hora e paga-se por quilo. 
 
Voltamos para dormir em um belo quarto, grande e confortável. O clima de montanha deixa a noite fresca, propícia para dormir.  
 
Pela manhã, apareceu na pousada um representante do “breganejo”  goiano, como chamam por aqui. Tem um carro rebaixado, som potente e chega sendo amigo de todos. Não está hospedado na pousada mas estaciona, senta na beira da piscina, tira a camisa, fica bem a vontade e ainda trouxe sua filhinha para brincar. O espaçoso “breganejo” veio tentar emprestar o espaço das churrasqueira da pousada para trazer alguns amigos, que dizia ele, serem pessoas importantes de Brasilia. O dono da pousada não emprestou o espaço para o espaçoso.
 

Deixamos a cidade rumo as cachoeiras próximas. Ida e volta foram 13 km andando pelo asfalto e estradas de terra cheias de pedras e poeira que brilham com o sol.

 

No caminho passamos um apuro com uma turminha de bovinos, soltos na estrada, que nos encararam e eu tive que reagir. Com um pequeno pedaço de pau, algumas pedras na mão e alguns gritos consegui afugenta-los. Deu certo, mas que deu medo deu. 
 
Chegamos nas belas  cachoeiras em propriedade particular, com guarita e valor de 15 reais por pessoa como taxa de visitação. 

 

Outra cachoeira a menos de 2 mil metros, no mesmo rio, de outro dono, mais 15 reais para entrar. 

Apesar da exploração das terras onde estão as cachoeiras, os donos justificam que se não cobrarem a entrada as pessoas depredam, cortam as árvores, fazem churrascos e largam o lixo. 

Realmente, o lixo está espalhado por todo o caminho, arremessados pelos  freqüentadores das cachoeiras. Vimos latas de bebidas, embalagens plásticas e até fralda descartável. O descaso é coletivo e poucos realmente tem a tão desejada e necessária consciência ecológica.

Porque atiram o lixo de dentro do carro em plena moradia da natureza? Seria para nao sujar o carro?  Seria por pirraça ou revolta com a sociedade? Seria pura rebeldia? Seria desconhecimento? Ou seria um simples descarte do que não é mais útil? 

Os donos acreditam que cobrar um valor alto, seleciona um pouco mais o nível dos frequentadores, de forma ignorante, pensando que a consciência ecológica é definida pelo nível social.  Já que pensam assim, o justo seria, no mínimo, cobrarem mas oferecerem mais conforto e principalmente segurança nos ambientes de cachoeira.

Em uma das cachoeiras, tentamos ficar um pouco mais no local com uma pequena lanchonete, que só vende cerveja e coca litro, mas os “breganejos” estavam por lá e disputavam a potência do som, sem se importar com a qualidade ou a moralidade de suas músicas. 

 

O rio com pedras e areias brilhantes formam várias cachoeiras de água gelada, proporcionando um belo e massageador banho.

 

Na volta em pleno dia primeiro de maio, Dia do Trabalho, um homem solitário quebrava pedras. 


Fomos até ele, que parou de trabalhar um pouco, sentamos na sombra e ele nos contou várias histórias da pedreira e de sua profissão. Disse que quebrando pedras sustenta sua família há mais de 20 anos e ganha acima de dois mil reais por mês. 

Falou que dali ele extrai pedras brancas, rosa, amarela e verdes. As verdes são as mais caras e quando acham um veio da verde é como se fosse um belo prêmio.  

Depois me ensinou a quebrar pedra e eu garanto, não é nada fácil. Logo eu pedi o salário e ele disse que só paga no fim da semana. Pedi férias e ele consentiu. Entramos em acordo e atualmente estou de férias da pedreira.


Esta foi a nossa produção do dia. Eu com vinte ou trinta marretadas e ele com o restante.


Depois ele nos levou para beber água na nascente das várias minas que brotam nas pedras.

 

Voltamos para casa e a Ade fez um belo jantar, no fogão a lenha. Os dois empregados da pousada buscaram a lenha, ascenderam o fogo, arrumaram a mesa e jantaram com a gente.

 

Saímos passear sem destino pela cidade, de sombra em sombra, no sol escaldante do cerrado de Goiás. As ruas, as calçadas e os muros, quase todos com a pedra de Pirenópolis, que são os quartizitos extraídos por aqui em larga escala. Apesar de cara ela cobre pisos, fundo de piscinas, paredes, coretos e bancos de praça.

 

Embaixo de uma ponte que passa um carro de cada vez, que corta a cidade, encontramos mulheres garimpando metais preciosos, ainda ao estilo antigo. Dizem que conseguem ganhar em torno de 100 reais por semana.

 


A maioria dos bares e restaurante são aconchegantes, com decoração rústica e a maioria servem comidas típicas. 

Em Goiás o povo só não fala “uai”, mas o sotaque e a comida são muito parecidos com Minas Gerais. Almoçamos em um restaurante todo decorado com madeiras grossas, objetos antigos pelas paredes, com uma carroça no meio do salão, onde estão servidas as comidas com mais de 40 opções de pratos quentes, saladas e muitos doces para sobremesa. Depois descansamos do almoço, que ainda estava visível na minha barriga.

 

Passamos por um local, onde acontecia uma reunião dos Foliões da Festa do Divino Espírito Santo, celebrada uma vez por ano na cidade. São ricos e pobres unidos pela fé, quase todos uniformizados. 


Centenas de cavaleiros e poucas amazonas, estavam na casa de anfitriões,  onde é servido um almoço para quem chegar. Todo mundo ajuda a servir, a comida é boa e a oferta serve para preparar os foliões para a festa. 


Depois tem a sobremesa, é servido um chá e começam as danças e cantorias de agradecimento, num ritual com cantores oficiais, sanfona, pandeiro, zabumba, violão e quem não toca instrumento, canta e bate palmas.

Na rua cavaleiros exibem com orgulho seus cavalos enfeitados, regados com muitas latinhas de cerveja, se preparando para a partida da comitiva. 

Alguns cavalo caros são exibidos somente na cerimonia de partida e de chegada nos lugares onde acontecem as festas. Seus donos ricos, usam pangarés durante a trajetória da comitiva de fazenda em fazenda,  para não sacrificar suas relíquias. O puro sangue chega nas festas em confortáveis caminhonetes, com carretas estofadas, preparadas para o transporte de animais.

Também são exibidos chapéus, botas, esporas, reios, bolsas, arreios e especialmente cintos com fivelas que são verdadeiras jóias.

 

Antes da partida, os anfitriões entregam as bandeiras, quando acontecem mais cantos de agradecimentos, até que a comitiva sai em desfile pela cidade rumo a primeira fazenda, dando início a grande festa com danças, músicas eletrônicas, cantorias e muita bebida.

 

Cada dia uma fazenda oferece o pouso e, durante os doze dias de festa, passam por nove fazendas e mais três dias de festa na cidade.

Depois que passam pelas nove fazendas, chegam em comitiva na cidade, reunindo em torno de setecentos cavalos.

Passamos pela sede de uma das fazendas que oferece o pouso aos foliões há 16 anos e fomos recebidos pela dona da casa que nos mostrou e contou tudo  sobre a grande festa. Disse que é uma honra receber a festa, apesar da bagunça que os festeiros embriagados deixam na fazenda depois da festa e do trabalho que dá fazer refeições para uma multidão de pessoas. Nem todos comem e, no auge da festa, chegam a estar reunidas 5 mil pessoas em cada fazenda.

 

A fé depositada no Espirito Santo faz com que os anfitriões trabalhem muito, sem reclamações dos esforços desprendidos e do dinheiro investido. 

Esta festa acontece há quase trezentos anos e no inicio era proibido a participação dos negros. Inteligentemente eles introduziram uma máscara de boi, que cobre o corpo todo, para que pudessem participar da folia sem serem identificados. Os foliões aderiram a máscara e até hoje ela faz parte do encerramento da festa.

 

A festa acontece em quatro etapas. Uma nas fazendas, onde ocorre a festa do profano, com cerveja, danças e estripulias. Outra, também nas fazendas, onde acontece a festa do padre com bolo, refrigerante e rezas. Outra em algumas casas na cidade, onde tem dança e reza e a última etapa que acontece com todos os participantes espalhados pela cidade, nos três últimos dias, quando os foliões usam as máscaras. 

Ouvimos muitos causos desta que é a principal festa da cidade, feita para o povo da região e não para turistas. Durante a festa muitos casais se separam e muitos empregados não comparecem ao serviço. Depois da festa volta tudo ao normal, os empregados retomam o trabalho e muitos casais se reconciliam, tudo em nome da fé no Divino Espírito Santo

 

A noite na pousada a Ade preparou uma rabada com cenoura e, eis que derrepente, os dois empregados da pousada rodeavam a refeição. Convidamos eles e depois apareceu o dono e sua esposa, que também aceitaram a refeição. Novamente a magia da Ade na cozinha multiplicou a comida e deu para todos o jantar. 
 
Havíamos combinado com uma agência de turismo um passeio de um dia pela região a um valor de 400 reais. No dia do passeio o rapaz chegou e falou que não daria para fazer naquele valor combinado e que o preco agora seria de 500 reais. Imediatamente falei a ele que isso era desonesto e que eu não queria mais o serviço dele, que tentava me estorquir. Ele tentou justificar, propôs manter o preço e mesmo assim eu disse a ele que eu não queria mais o trabalho de guia da empresa dele. Chateado com o investida errada ele foi embora sem o trabalho e sem moral na pousada que não mais o indicará.
 
O gerente da pousada ligou para outro guia e fizemos o mesmo passeio por 260 reais. O desonesto guia achou que era o momento de enganar um turista e ficou sem nada. O outro guia foi muito prestativo a custo menor e com o passeio ainda mais abrangente. Ainda bem que o desonesto tentou extorquir e perdeu tudo e nos saímos ganhando com a tentativa de roubo descarado do agente de viagem. 
 

Fomos visitar uma fazenda com cachoeiras maravilhosas, piscinas naturais e minas que brotam das pedras. 

 

 

 

 

Sentados na corredeira de águas límpidas e geladas, fizemos novos amigos e conversamos por horas naquele ambiente privilegiado pela natureza.

 

Em muitos lugares haviam pedras empilhadas e eu também fiz meu montinho em uma gruta ao lado da cachoeira. Perguntei ao guia o significado daqueles montinhos e ele disse não significa nada, que isto é coisa de quem não tem o que fazer. E eu que pensei que era uma crença ou simpatia, na verdade era só passatempo. Mesmo assim meu montinho ficou na gruta.

 


Depois de um belo e saboroso almoço, feito no fogão a lenha, ficamos um bom tempo deitados no redário com uma visão exclusiva.

 

A noite fomos conhecer os bares, restaurantes, lojas e a feira de artesanato no centro da cidade que, apesar de movimentada não perde o ar de pacata. Fizemos um lanche com um caldo de mandioca com carne de sol e voltamos para casa.  

 

Domingo de descanso na pousada. Conversamos por horas com dois casais que trabalham para o governo em Brasilia. Um casal direto com a presidência e o outro na câmara dos deputados. Contaram vários lances de convivência direta com o poder. Interessante, por mais que falem bem do trabalho, acabam vez ou outra criticando o sistema, a força e as mordomias no poder.  
 
A tarde, visitamos uma loja de antigüidade e um museu de duas rodas, muito bem organizado, bonito, com 160 peças entre bicicletas, triciclos e motocicletas, mostrando a evolução das duas e três rodas, desde a invenção.

 

A cada dia que passa, nossa neta parece que nem liga tanto para a “vovó nude” e para o “vovô peto”. A distância dos corpos e dos afetos, ainda não são substituídas pelo tecnologia do telefone ou do computador. 

Nossos filhos já estão crescidos e com vida própria e a saudade diminui com o telefone e com o computador. 

O único prejuízo desta nossa viagem é estar longe . Sairde casa quando nossa primeira netinha esta passando a vida deliciosa de bebê. 

Já estaremos de volta princesa Sophia.