//5. Festa Peão do Boiadeiro de Barretos

5. Festa Peão do Boiadeiro de Barretos

Nossos amigos de Ibiúna, Zé e Semiramis, aceitaram nosso convite e seguimos juntos participar da Festa do Peão de Boiadeiro de Barretos, interior de São Paulo.

Como sempre em nossas viagens, o caminho é aproveitado da melhor forma. Paramos para conhecer Pedreiras, a cidade das louças e decoração.

Depois seguimos para Holambra, a cidade das flores. Como já era tarde, paramos na beira do lago para um lanche holandês e seguimos para o camping. Foi a primeira noite do Zé e da Semiramis em um camping.

Dia seguinte rumo a Barretos, ansiosos para conhecer uma das mais esperadas festas em território brasileiro, seguindo pela belas e bem cuidadas estradas do Estado de São Paulo.

Na chegada um desagrado com a receptividade dos empregados que cuidam da portaria. Uma mulher pediu para eu parar e logo foi dando bronca por que eu demorei um pouco mais para estacionar onde ela queria. Disse que era da fiscalização abriu a porta e foi entrando em busca de bebidas alcoólicas, proibidas de entrar no evento que tem um patrocinador e proíbe.

Ela foi pegando nossos vinhos da adega e logo pedi para que largasse tudo e saísse da nossa casa. Ela saiu e chamou o chefe que veio com mais uns 5 outros fiscais da festa. Depois de muita discussão, deixaram passar os vinhos whisky, cachaça, água e sucos. Ficaram somente com a cerveja e a vodca com a promessa de devolver no final.

Depois do estresse da chegada seguimos para o credenciamento e daí veio o susto com os valores abusivos para ingressos individuais e do carro. Quando comentei sobre o alto valor, alegaram que aumentaram os preços para selecionar o público. Engraçado.

A seleção é pelo dinheiro.

Nem sempre foi assim. No início a festa era para divertir o público, depois e ainda hoje passou ser também beneficente por fim virou um grande negocio que envolve milhões de reais.

Tudo começou quando em 1831, um tal de Francisco Barreto apossou-se de grande quantidade de terras na região e organizou suas fazendas. Seus descendentes, após sua morte, doaram terrenos, onde foram construídas as primeiras casas da nova cidade que surgia.

Era mais uma cidade comum, até que na década de 50, um grupo de homens solteiros fundaram um clube para organizar rodeios. Os Independentes, que ainda hoje organiza a grande festa. O clube tinha uma regra: o sócio tinha que ser homem, maior que 22 anos, solteiro e independente financeiramente.

Cavalhadas

As primeiras festas eram realizadas em dois dias com montaria em cavalos, touros, danças folclóricas, conjunto de violeiros, queima do alho e desfile com carros de boi. A inspiração veio da Cavalhadas, festa que simboliza a luta dos Cristãos contra os Mouros, na Idade Média.

A idéia se manteve e só cresceu no decorrer dos anos. Na última versão, em 2018, passaram mais de 900 mil pessoas pelo parque. O local tem mais de 80 alqueires de terra e abriga uma Feira Comercial, estacionamento para 14 mil veículos, diversos galpões, área de camping, espaços de lazer e a majestosa Arena de Rodeios, tudo projetado pelo mais famoso arquiteto brasileiro, Oscar Niemeyer.

Na cidade conhecida como a terra do rodeio, na entrada do parque, está uma justa homenagem ao peão, com um monumento de 27 metros de altura.

A atração principal da festa é, ou deveria ser, o rodeio. No entanto, o que mais atrai pessoas é a quantidade de shows sertanejos, toda noite com quatro ou cinco apresentações de artistas que fazem sucesso com músicas de “sofrencia”, num ritmo que mais induz ao cantar do que ao dançar.

Além do palco principal, na Arena, que acomodou 100 mil pessoas em um show no sábado à noite, existem outros palcos espalhados pelo complexo. Um somente com músicas caipiras raízes, outro com músicas de viola, outros dentro dos bares e um, com nome curioso: Palco Amanhecer. É nele que os sofridos apaixonados ou alegres bêbados, ficam no show até o sol nascer, todos os dias.

 

Vivência

Outra grande emoção que vivenciamos nos dez dias de festa, foram as amizades e incontáveis e agradáveis relações que tivemos com pessoas que, na grande maioria, tem os mesmos hábitos caipiras nos trajes, na culinária e na maneira de falar.

Ficamos acampados dentro do parque, bem próximos dos animais e peões das competições. Um dia, eu sentado observando as pessoas no camping, me assustei com a chegada de um boi enorme, bem no nosso quintal. E o peão ainda ajudou a gente subir.

A noite o boi fica na praça, para os turistas subir e tirar fotos. Ele cobra 10 reais por pessoa. Durante o dia os peões levam o boi para passear no camping e trocar as subidas por cervejas.

Pelas ruas ou nos pastos dentro da vila do rodeio, a todo momento observamos belas espécies, todos muito bem cuidados, tratados como as estrelas da festa.

Os animais do rodeio de Barretos são forçados a pular através do uso de choque elétrico

O rodeio é uma paixão para muitos criadores, admiradores, peões e trabalhadores que vivem em função do evento. No entanto, ativistas dos direitos animais criticam a prática, alegando estresse ao animal.

A UNESCO

No artigo 10 da Declaração Universal dos Direitos Animais, impede que animais sejam explorados para divertimento de seres humanos, por serem incompatíveis com a dignidade do animal. Na verdade, pelo que vimos, especialmente nas provas com touros, quem mais sofre são os peões, que quase sempre acabam a montaria expressando dores pelas pancadas e pelas quedas. Isto os Direitos Humanos não mencionam.

Nesta foto oficial do Rodeio de Barretos é possível avaliar que os animais não são submetidos a grandes torturas como dizem. Não é verdade que os órgãos genitais são comprimidos e as esporas são com pontas arredondadas para evitar ferimento na pele do animal.

O Sedém fere o couro e aperta os testículos dos animais

Existem várias competições entre homem e animal, onde juízes avaliam com notas de 0 a 10, escolhendo os melhores que recebem prêmios valiosos e se habilitam nos rodeios regionais para os nacionais e os internacionais.

As provas

No evento acontecem várias provas que envolvem animais nas atividades de montaria, provas de laço, gineteadas, pealo, chasque, cura de terneiro, apartação, prova de rédeas e outras típicas da tradição sertaneja.

A principal é a ginetiada, que consiste em permanecer por até 8 segundos sobre o animal, cavalos ou touros, onde os árbitros avaliam o peão e o animal e ambos podem ser classificados para as provas de maior destaque.

Nos rodeios primitivos, os emocionantes e arriscados exercícios de montaria, quase não tinham regras. Valia apenas o tempo em que o peão conseguia ficar sobre o animal, fazendo a platéia delirar.

As mulheres participam também com grande galhardia, especialmente nas provas dos três tambores. Elas participam ativamente cuidando da arena, não permitindo que os animais que já foram montados fiquem fora de controle.

Outro personagem de grande importância nos rodeios, são os Salva-Vidas, valentes vaqueiros que evitam que os animais machuquem os peões. Eles colocam suas vidas em risco para salvar o peão que cai durante a montaria, entrando na frente e espantando o animal.

 

Depois dos Estados Unidos, o Brasil é o País que mais revela animais e peões de boa qualidade. O Brasil já sagrou-se campeão mundial por várias vezes.

Nós conhecemos um Peão de carreira, que vive de rodeio em rodeio tentando a sorte, com muita fé, aperfeiçoando sua técnica de montar um touro de quase uma tonelada.  O Rafael da Silva Santos, de 23 anos, mineiro, que já venceu várias provas, já ganhou em Barretos e disputou o mundial, contou um pouco de sua historia.

Me disse ele: “Eu mentia pra mãe que ia jogar bola, pegava a chuteira e ia montar em touro. Ela não deixava em touro, mais eu gostava. Um dia o boi me acertou na testa e eu fiquei inventando uma história pra contar pra ela. Eu ia falar que cai da moto do meu amigo, mas eu contei pro meu vizinho e ele disse pra eu contar a verdade. Eu contei, ela ficou brava mas agora ela deixa”.  Por mais que eu queira, não consigo escrever tal qual a fonética que o Peão Rafael usou.

Cumprimentei o Peão Rafael e deixo aqui minha homenagem à bravura dos peões, dos touros e cavalos, principais astros de cada rodeio.

Muitos peões e animais já ficaram famosos nos rodeios de Barretos. Em um dos dias de prova, na competição nacional, o melhor touro da atualidade foi sorteado para ser montado pelo melhor peão. Foi uma enorme emoção estar na arena e assistir aquele momento.

A porteira se abriu e o enorme touro, que ainda não consentiu qualquer peão em seu lombo por 8 segundos, deu a partida e já deu um salto com as quatro patas saindo mais de um metro do chão, rodopiou o quadril e jogou o melhor dos peões a três metros de distância.

Um dos animais se tornou especial, famoso a ponto de emprestar sua história para uma novela de televisão.

O Boi Bandido

Em todo tempo de existência do Boi Bandido, somente um peão conseguiu permanecer por 8 segundos montado em seu lombo. O Boi é uma lenda e chegou a ser clonado. Gerou 8 filhos, mas apenas dois ficaram bons para o rodeio, mas não com os dotes excepcionais do Pai.

O Boi Bandido está enterrado e homenageado com uma monumento em tamanho natural, no museu do parque.

Ficamos todos os dias da festa, encantados com os acontecimentos, já falando em voltar em 2019, como tantos outros que foram uma vez e voltam todos os anos. A Festa do Peão de Boiadeiro de Barretos é mesmo uma paixão, não somente pela belas atrações, mas principalmente pelas belas amizades. Parabéns ao Clube Os Independentes.

Saímos de Barretos bem mais felizes do que quando chegamos. Seguimos para dormir em um dos vários hotéis resorts no interior de São Paulo, que estão organizados para hospedar motorhomes em seus estacionamentos. Lá ficamos por três dias para descansar da festa e seguimos para o Mato Grosso do Sul, onde fomos participar como padrinhos de casamento de nossos sobrinhos Diego e Kalline.

Este foi aquele casamento que teve que ser adiado por conta da greve dos caminhoneiros, descrito em um dos posts anteriores. Agora aconteceu e foi uma linda festa.

VIDA LONGA AOS NOIVOS