//5 – SESIMBRA, ARRABIDA E SETÚBAL – PORTUGAL

5 – SESIMBRA, ARRABIDA E SETÚBAL – PORTUGAL

O dia 25 de abril é um dia de comoção nacional em Portugal. Em 2.014 o País comemora 40 anos do fim de uma ditadura, que foi imposta sob o comando de Antonio Oliveira Salazar e Marcello Caetano, que governaram com braço forte durante 48 anos. 

Foi também um dia de protestos contra a austeridade imposta pela crise econômica que se abate em vários países da Europa, em especial Portugal, que sofre com as sanções impostas pelos credores, massacrando empresários com a baixa no crescimento, a classe trabalhadora e pensionistas com arrochos salariais.

Andamos pelas ruas onde se passou o que se passou a quatro décadas. O povo protestando com manifestações, cartazes pela cidade, shows artísticos e as Forças Armadas mostrando seu poderio nas praças.


Em 25 de abril de 1.974, os portugueses viraram a página da sua história acabando com a opressão salazariana, com a instauração da democracia que veio com muitas conquistas sociais, como a liberdade de expressão, a instauração do salário mínimo, o direito de greve, eleições livres, seguro saúde para todos e a igualdade de direitos entre homens e mulheres. 

Agora querem o fim da ditadura, impostas pelos credores internacionais, que exigem o sacrifício do povo com diminuição de ganhos e aumento de impostos. 


Entusiastas exibem cravos vermelhos, símbolo a revolução, que foram distribuídos aos soldados durante o golpe de 74. Os cravos foram colocados nos canos das espingardas, demonstrando o desejo de uma revolução pacífica, tal qual aconteceu.


Ao contrário do Brasil, que o povo clamava pela saída dos militares, a revolução de abril em Portugal, foram os militares que se uniram ao povo para tomar o poder. 

Conta-se que tudo começou quando dois militares voltavam de uma reunião e pararam o carro por culpa de um pneu furado. Na conversa informal, os dois descobriram que tinham um mesmo sonho: tomar o poder. Da conversa, surgiu o Movimento das Forças Armadas – MFA, que começou a ganhar força e conquistou o poder no dia que ficou conhecido como “25 de abril” ou “Dia da Liberdade”, que expulsou os ditadores e devolveu o governo ao povo.

Basco Lourenço, coronel da reserva e atuante no golpe de 74, continua com idéias revolucionárias. Frequentemente critica o governo português por suas tendências conservadoras em relação às políticas de austeridade econômicas dos últimos anos, estipuladas pela União Europeia e o FMI. “Sinto uma grande desilusão, não acredito nos políticos de hoje”, admitiu em entrevista o militar, hoje com 71 anos, defensor de uma nova revolução.

O descrédito aos políticos é hoje uma realidade em várias partes do planeta e o poderio econômico é o grande avassalador das igualdades e do respeito ao povo. É preciso urgentemente reconduzir a verdadeira essência da política, retomando regras simples como esta que encontrei na internet.



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Na agradável companhia de nossas amigas catarinas/portuguesas, fomos conhecer as praias ao sul de Lisboa. Passamos por um enorme ponte sobre o Rio Tejo, rumo a Sesimbra e por várias outras vilas litorâneas, sempre por boas estradas, bem sinalizadas.

 


Passamos por campos onde uma pacata vida portuguesa acontece. Pelos caminhos que passamos vimos poucas pessoas e as casas sempre com janelas e portas fechadas.

No alto de um morro florido, paramos para avistar o mar e Lisboa ao longe, onde as meninas se deliciaram com poses e fotos junto á exuberante paisagem.


Chegamos a um patrimônio histórico, o Santuário do Cabo Espichel, com um calendário cíclico de romarias em homenagem à Nossa Senhora do Cabo, com origem no século XV. 


A igreja grande foi construída por ordem de D. Pedro II, com alojamentos para abrigar romeiros que vinham saudar Nossa Senhora. 

Antes existia apenas uma pequena capela que foi erguida por dois velhinhos que avistaram Nossa Senhora e ilustraram sua lenda em azulejos no interior da capela à beira de um abismo.

À beira do abismo, a Ade até que tentou um sobrevôo para admirar do alto a estonteante paisagem do lugar.




Recordando as antigas tradições, a Ade se aventurou em pastorear ovelhas, mas elas nem ligaram pelo comando sul americano. Talvez tenha faltado um cajado.


Chegamos a Sesimbra e, no alto de uma montanha, encontramos uma vila amuralhada. Pelo tamanho da chave dá para imaginar o tamanho da importância do castelo que ali era habitado.


O Castelo de Sesimbra, também nomeando de Castelo dos Mouros, foi habitado por vários povos e não se sabe ao certo a época da edificação da muralha e nem quem a mandou construir. O que se sabe é que no local existem evidências de vida primitiva, que remonta à pré-história, confirmado por pegadas de dinossauros e ossadas na área do castelo.

A visita ao Castelo é gratuita e o local se encontra em boas condições de preservação. Nos vários salões das torres da muralha, cartazes explicam os detalhes da grande obra, com cartazes e maquetes. 


O Castelo medieval possui três torres de vigilância, com boa visibilidade de toda a região. Os construtores consideraram e aproveitaram-se da topografia.


Os castelos construídos na época eram erguidos pelas comunidades ou por ordem dos senhores de acordo com as necessidades estratégicas e defensivas.

Como um centro militar, sua manutenção era primordial e um grande número de homens ficavam armados em vigília constante. Como todos deviam ser providos de alimentos, nas proximidades fora do castelo, formavam-se vilas com a população a produzir, sem a menor proteção contra os ataques inimigos da época.


No centro da muralha existe a Igreja de Nossa Senhora do Castelo, com suas paredes decorada recobertas com azulejos pintados à mão. 

Em uma das paredes, a Santa Ceia é de uma beleza incrível, fantástica obra de arte.

 


Pelas estradas de Sesimbra, procurando atrativos, acabando nos perdendo e, sem ter para quem perguntar, saímos por uma estrada de terra, também em boas condições. 


Passamos por uma floresta de Sobreiros, a árvore nativa da qual são retiradas a cortiça, matéria prima para produção das famosas rolhas portuguesas. 

Pelas leis nacionais nenhum Sobreiro pode ser cortado sem um rigoroso critério aprovado por um órgão governamental. Aquele que cortar uma árvore pode pegar até 20 anos de prisão.

Tal qual no Paraná com as Araucárias, o depredador que necessita retirar uma árvore por qualquer motivo, aplica injeções de veneno até a árvore morrer. Somente desta forma podem ser abatidas sem as garras da leis.

 


A cortiça retirada da casca da árvore é utilizada para a confecção de uma variedade de peças de artesanato, produzidas e vendidas por todo o País. Com a cortiça é possível fazer chaveiro, guarda-chuva, bolsa, pulseira, avental, chapéu, vestido e muitas outras peças. 

A cortiça é tão versátil para o artesanato em Portugal, quanto o capim dourado que nasce no Jalapão, Estado do Tocantins ou as cascas da bananeira no Mato Grosso do Sul, no Brasil.


A qualidade de cada rolha é proporcional à qualidade e ao preço da bebida que ela tampa. As principais e mais caras bebidas possuem rolhas de primeira linha e são as mais caras por que são extraídas da parte nobre da casca do Sobreiro.

Muitos Fazem coleção colocando-as em enormes vidros e até o Estado português e empresas com responsabilidade social, se preocupam recolhendo rolhas para reciclagem.


Paramos sobre uma enorme montanha à beira mar, com uma bela visão da Arrábida, uma pequena vila com poucas moradias de veraneio.


Ao anoitecer chegamos a Setúbal, paramos na praça do cais e visitamos os belos restaurantes à beira mar.



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Passeando a pé pelo centro de Lisboa, encontramos uma feira com produtos artesanais e muitas opções de comidas e bebidas típicas. 

Provamos algumas iguarias saborosas. Impossível provar todas, apesar da vontade.

 


O leitão, sacrificado duas vezes, é assado inteiro dentro de um forno a lenha e servido em porções ou em sanduíches.



Paramos para conhecer uma igreja, bem na hora que iria começar um casamento. A noiva, junto com duas madrinha enormes e uma pequena para manter a tradição, chegaram de tuc-tuc, uma motoneta aos moldes dos asiáticos que por aqui são usadas para passeios com turistas.

 



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Passamos uma tarde no Parque das Nações onde os lisboetas passeiam aos domingos e feridos. A praça das águas, o bondinho, os dinossauros, os lagos, as fontes, o teatro e as exposições encantam os visitantes. 

 


No Parque tem um local que todos devem conhecer, que é o Oceanário. Um enorme local com uma coleção da vida marítima, com espécies de todos os mares e dos oceanos do planeta. 

O Oceanário de Lisboa é considerado um dos melhores, de uma beleza encantadora. 

 


É uma delícia ficar contemplando o gigante aquário principal ou as dezenas de outros menores, com a vida marinha exclusiva de cada oceano.


Fomos passear no centro da cidade, agora sim subimos no Elevador de Santa Justa, de onde se tem uma vista ampla do centro de Lisboa e do Rio Tejo. 

Na entrada do elevador um músico perspicaz, brasileiro, tocando muito bem, consegue identificar a nacionalidade do turista e toca uma melodia para cada nação e, claro, ganha uma moeda.



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Primeiro de Maio, Dia do Trabalho e os lisboetas voltam às ruas e, novamente não para comemorar e sim para protestar. Entre as praças Martim Moniz e Alameda, subindo a Avenida Almirante Reis, milhares de pessoas caminharam em passeata cantando palavras de ordem.

“O povo, unido, jamais será vencido”
“Novelinha nacional, contra o capital”
“Tá na hora, tá na hora, do governo ir embora”
“O País é para todos, ninguém é ilegal”
“Nem menos, nem mais, direitos são iguais”
“Chega, basta de miséria e do FMI”

A primeira estrofe da música da Revolução dos Cravos, censurada durante muitos anos, também foi cantada pela multidão.

“Grândola, vila morena
Terra da fraternidade
O povo é quem mais ordena
Dentro de ti, ó cidade” 

Ouvimos muitos outros gritos de ordem que não consigo lembrar, puxados por sindicalistas e grupos de etnias, clamando pacificamente, sem tumultos, pedindo direito ao trabalho, salário digno, férias anuais, habitação condigna, direito à segurança social, à saúde, à educação, à cultura e a um tratamento justo.

Concentrados na Alameda, enquanto discursos calorosos aconteciam, barraquinhas vendiam queijos, azeitonas, sanduíches, bebidas e sardinha assada: “Direto do mar para o fogo”, como nos disse um assador.

A grande maioria dos que protestavam ou assistiam a passeatas eram idosos,  reivindicando direitos perdidos e outros tantos jovens desejando direitos ainda não conquistados.

Eu e Ade ficamos emocionados vendo tanta gente clamando justiça. Pessoas com poucos recursos, oprimidos, sofridos, nada parecido com o que esperávamos encontrar no povo europeu. No jornal entregue nas ruas, um dado lamentável sobre Portugal: “18% da população vive na miséria e 46% estão no limiar da pobreza”. Nós vimos parte deste retrato e muito nos entristeceu. Grande parte do povo sofre, mas ainda não se mostram revoltados.

Esta união ainda não deu certo. 

Antes do milagre econômico brasileiro e antes da crise da União Europeia, a frase abaixo era lembrada no Brasil como um desejo, cantado por Chico Buarque. Os tempos mudaram. Hoje, fiquei pensando numa inversão.  



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Procurando um veículo que nos dê suporte de transporte pela Europa, fomos a Estoril. Andamos muito por que uma revenda é longe da outra, mas conhecemos a cidade. 

A Ade encalorada e com seu chapeuzinho novo, ficou firme sob um sol acesso.


Ficamos encantados com um motorhome, ano 2007, ainda sem uso, por 28 mil Euros que, após os pedidos de desconto da Ade, acabaria saindo por 22 mil. 

Pensamos, pensamos e na conversa descobrindo detalhes, acabamos por desistir. O veículo está a venda há 7 anos por que está muito difícil vender este tipo de veículo em épocas de crise. Como o valor é alto e o risco de revenda na volta é grande, preferimos procurar um carro.

Ainda deu tempo de um descanso na Praia do Cassino de Estorial, onde jovens turistas alemães e espanhóis se deliciavam no sol já frio, por volta das 19 horas.


Buscando na internet, encontrei um veículo que atende nossos anseios. Enquanto a Ade passeava pela cidade, fui conhecer um Ford Fusion, cinzento, a diesel, com ar-condicionado, ABS, air-bag, ano 2004, pequeno, alto e com bom espaço interno. 

Precisei fazer o Cartão do Contribuinte Português, obrigatório para comprar e vender móveis e imóveis. A Isa foi de uma presteza fundamental para que eu conseguisse tirar o documento, me apresentando e me autorizando a usar seu endereço, além de ficar por quase três horas comigo na repartição pública. Que bom. Agora devo fazer declaração anual de imposto de renda também em Portugal.

Com dois dias de envolvimento entre a compra e a documentação, o veículo já ficou registrado em meu nome. 

Nesta carrinha, como dizem os portugueses, eu e esta gatinha vamos conhecer muitos cantinhos da Europa e contar quase tudo neste blog.