//7 – REGIÃO DA FUMAÇA

7 – REGIÃO DA FUMAÇA

Depois de uns dias em Punta del Este, retornamos rumo ao Brasil para visitar alguns pontos que deixamos para trás. Passamos pela Puente Leonel Vieira, nome do construtor da ponte, que também é conhecida por Puente de La Barra ou Puente Ondulante, que cruza um arroio entre as cidades de Punta del Este e La Barra.

Será que o engenheiro Leonel estava bêbado quando projetou a ponte?. Ele quis mesmo fazer uma obra de arte ou zombar de um outro engenheiro que fez uma outra ponte antes, próximo do local e ela desabou?.

O chileno Pablo Neruda, quando visitou a cidade, comparou a ponte do engenheiro Leonel, com os seios e abismos  de uma mulher nua. Será que o Neruda estava bêbado também ou é coisa de poeta da melhor qualidade?

Próximo a José Inácio, um outro maluco fez uma ponte também um tanto esquisita. Eu não consegui uma boa foto para mostrar, mas acreditem, tem um rotatória no meio da ponte, só com entrada e saída. Confesso que não entendi, mas fica aqui a homenagem também ao projetista da Puente Laguna Garzón, que talvez também quis ser artista, ou estava sobrando concreto.

Foto da internet

Passamos por José Inácio, visitamos o farol, subimos os 122 degraus, tiramos algumas fotos e seguimos para a região onde a fumaça é mais intensa.

Poucos fumam cigarros na região da fumaça, mas a fumaça está por todo lado. Em fogueiras para esquentar água para o mate, na churrasqueira para o assado e no baseado, que agora é liberado para consumo em todo País.

Bob Marley é ídolo e a folha da canabis ilustra paredes e bandeiras hasteadas nas casas e pequenos comércios. Fumam o alucinógeno com a normalidade de quem agora está nos seus direitos. Jovens e idosos se alteram com a fumaça em busca do “algo”, do “barato”. A loja museu da erva, La Cucaracha, traduzido para o português é barata. Talvez o nome é uma referencia ao “barato”, como diz a música “barato é o marido da barata”.

Uma grande quantidade de jovens estão usando a droga livremente e, provavelmente, a saúde pública terá problemas, por que a cannabis é, quase sempre, uma droga de entrada para outras mais potentes, especialmente para jovens com pouco ou nenhum preparo psicológico. Sem contar que o consumo quase sempre é atrelado ao consumo de bebidas alcoólicas, potencializando ainda mais o “cucaracho”.

A liberação é para o consumo, mas para o cultivo e para compra, existem regras. O produto é vendido em farmácias e o usuário tem que ser cadastrado e só pode comprar 10 gramas por semana e não é barato. Não é permitido a venda para estrangeiros, certamente para inibir turismo das drogas.

O País tenta diminuir o consumo com uma campanha pífia, de poucos recursos, pelo que eu observei, divulgam apenas alguns cartazes com dizeres:

Não uso drogas, sou melhor assim.

José Mujica, ex-presidente da república que assinou a liberação também é cultuado pelos apreciadores.  Ele disse na época que gastava muito dinheiro coibindo o uso da droga e que poderia ganhar impostos e economizar com o combate ao crime do trafego. Em 2013, o cultivo, produção e venda da cannabis foi aprovado pelo senado, tornando o País, pioneiro mundial na legalização total da droga.

Punta Del Diablo

Mochileiros por todo lado é uma visão comum em Punta Del Diablo. O vilarejo, cercado por dunas de areia, abriga pescadores, artesãos, pequenos comerciantes e gente que parece que fugiu pra lá.

Uma de suas lendas conta que o local era visitado por piratas que chegavam em busca de alimentos. Talvez pelos horrores, comuns nos piratas, o lugar ficou com o nome do demo.

No pequeno vilarejo, com ruas de areia, parece que o tempo parou para quem quer ficar parado. Tudo é muito tranquilo, as pessoas se vestem iguais mas cada um é diferente. Muitos com cabelos rastafari, muitos vestem e são meio que da cor pastel, mas pastel escuro, talvez por muito sol e um pouco por falta de banho. Ade era destaque com sua roupa colorida.

Falando em banho, eu vi um com cabelo rastafari saindo do banho com um frasco de detergente, aquele mesmo que usamos na cozinha. Será que ele tomou banho com detergente? Não duvido.

Os poucos moradores, menos de mil, se misturam com turistas e se vestem como quem veio ou está para provar do modo pacífico e simples do local. Ao final da tarde, vários artistas se apresentam nas ruas de terra a espera de plateia e de moedas. Ali mora a tranquilidade, a paz, a calma, o simples, o zen, o sono e a preguiça.

Existem várias pousadas, hostels e alguns hotéis. O principal camping, onde nos hospedamos, fica um pouco distante da praia mas oferece serviço de transporte a cada 1 hora, serviço de vigilância, piscina gigante, telefone público, wifi, supermercado, banhos aquecidos por caldeiras e lavanderia.

No camping nossa vida seguia fazendo amizades com brasileiros e com “los ermanos”.  Um dia vieram 3 meninas e 1 menino mochileiros argentinos, pedir água quente para fazer um macarrão. Ade emprestou o fogão, a panela, o tempero, os pratos, talheres e a mesa para sentarem. Não que eles pediram tudo isso, eles só pediram água quente, foi Ade quem ofereceu, quando percebeu que eles não tinham. Enquanto a massa ficava pronta, rolou uma longa conversa sobre vários temas, como escola, comportamento, comida, sonhos…, enquanto tomávamos coca cola com Fernet trazido por eles, uma nova moda na Argentina.

Concluída a massa, comeram e a conversa continuou até às 3 horas da madrugada. Para agradecer, duas das meninas, que são cantoras, nos brindaram com uma canção brasileira e outra, a meu pedido, um tango. Foi fantástico, vozes lindas, afinadas e ainda deixaram a metade do litro de Fernet de presente quando partiram.

Este casal chegou de motocicleta, um outro casal tinha uma mulher um pouco brava e um professor de artes marciais que a toda hora tentava me ensinar um golpe, uma família de gaúchos que chegaram em duas kombis, hastearam a bandeira do Inter, colocaram luzes de Led pisca pisca, nos convidaram para jantar um carreteiro. Foram vários amigos que fizemos no camping.

Muitos se aproximavam para conhecer a Caca ou para pedir nossa chaleira elétrica para aquecer água para a tão apreciada erva, não a polêmica, mas o mate ou chimarrão, como se diz no Brasil.

Como nós temos a chaleira elétrica, não custa nada servi-los. Nosso serviço é rápido e eficiente. Sempre que pedem a primeira vez, dissemos que podem voltar quando quiserem, e eles voltam. Uma senhora que utilizou nosso serviço várias vezes, quando foi embora, nos presenteou com duas latas de cerveja e o endereço da casa dela para que fôssemos visita-la.

Quando disse para um outro que veio pedir a água quente que a água havia fervido e que seria prudente ele esperar esfriar um pouco, ele disse:

se não queimar a língua o mate não é bom.

Poucos gaúchos dos pampas sul-americano tomam café, preferem o mate pela manhã, após o almoço, durante a tarde e antes de dormir. Eu poderia dizer que tomam o dia todo, mas eles insistem em separar os goles.

Quando fui mexer no porta malas da Caca, levei um choque elétrico. Como este problema já havia ocorrido antes da viagem, voltei na montadora e não encontramos o problema. Tentou-se uma solução, colocando um aterramento na entrada de energia e, como parecia que o problema estava resolvido, viajamos tranquilo.

o problema voltou

Liguei para a montadora e me disseram que teríamos que voltar para a fábrica para solucionar o problema. Estávamos decidindo voltar até a fábrica, 1200 km de onde estávamos, para fazer o reparo pois temia um incêndio ou um choque elétrico com outras proporções.

Enquanto passeávamos pelo camping, encontramos aquele pessoal do caminhão, que conhecemos na Casapueblo, em Punta Del Este. Ade perguntou se havia ali alguém que entendia de parte elétrica, pois foram eles que construíram os dois caminhões, e um deles disse ser engenheiro eletricista e prontamente se ofereceu para ajudar.

Foram três deles até a Caca para tentar uma solução. O Neto – engenheiro eletricista, o Metralha – ajudante de qualidade e o Diego – o japonês. Fizeram vários testes, queimaram meu multímetro e não desistiram. Enquanto Neto coordenava, o Metralha seguia os fios da Caca e eu providenciava as ferramentas. Depois que o multímetros queimou, eu e o japonês revezávamos para testar se estava ou não energizado ainda.

Levamos vários choques.

Só tenho a agradecer aos três por tamanha boa vontade, fomos até 3 horas da madrugada, até que o defeito foi reparado, sem descobrirmos exatamente o que acontecia. Trocamos um fio e desconectamos a instalação da máquina de lavar roupa, que chegou a ser instalada mas pedimos para retirar.

O problema foi resolvido mas não descobrimos a origem.

Fica registrado nosso agradecimento ao Neto, ao Metralha e ao Diego japonês. Em retribuição, fizemos uma assinatura de três meses para cada um do Moka Clube de Cafés Especiais.

O azar momentâneo não acabou. No dia seguinte, durante a madrugada uma chuva assolou o lugar e quando acordei pela manhã, uma desagradável surpresa causada pelo nosso descuido. Deixamos de fechar o teto solar e a água inundou meu computador.

Tentei secar com um secador, deixei no sol, abri, passei álcool e nada dele funcionar. Lá se foi um bom instrumento de trabalho da viagem. Mesmos com várias tentativas minha e de outros curiosos, nada. Busquei ajuda na portaria e fiquei sabendo que na cidade não havia ninguém que pudesse ajudar.

Pelo telefone busquei na região um lugar para repor ou reparar o equipamento. Achei que em Chui, zona franca, poderia encontrar e até pagar mais barato. Fomos pra lá, mesmo sem saber de uma loja que dispunha do equipamento, pois não conseguimos esta informação na internet.

Adivinhem!

Rodamos todas as lojas de eletrônicos e não encontramos quem reparasse e nem um novo igual ao meu, um McBoock Air. Como já estávamos na divisa e não tinha certeza se haveria o equipamento em Punta del Este ou em Montevideo, pois também não achei pela internet, partimos para Pelotas, pouco mais de 200 km de distância, onde tem um revendedor autorizado da Apple.

Ufa!

Encontramos e compramos o novo equipamento que oferece ótimas condições para leigos como eu operar na edição de um site. Pronto! Em posse do novo equipamento, fomos pernoitar no camping do Gabriel, na Praia do Cassino.

Fomos novamente muito bem recebidos e lá ainda conhecemos um casal de alemães que esta viajando pela América do Sul pelo décimo sétimo ano consecutivos, para fugir do inverno europeu. Também conhecemos um casal de franceses que vieram para América do Sul, foram do Ushuaia, até a Colombia e agora estão retornado ao Ushuaia para depois retornar para França.

Pegamos a estrada, paramos no Chui para comprar queijos e vinhos, passamos pela fronteira e fomos dormir novamente em Santa Teresa para reconstruir os arquivos perdidos e depois seguir viagem.

Cabo Polonio

Outro lugar que a erva polêmica corre solta é Cabo Polonio, onde parece que são as mesmas pessoas que vimos em Punta Del Diablo, mas não eram, ou eram. A verdade é que são parecidos mas diferentes, cada um no seu estilo que parece o mesmo estilo, destacando a cor pastel, escuro também. Muita gente vem para visitar o lugar no meio do nada bem próximo do mar.

Para chegar no vilarejo, somente com veículos autorizados ou com os caminhões adaptados para enfrentar as dunas de areia por estradas irregulares, que mudam o trajeto a cada sopro mais forte do vento.

Os visitantes param numa portaria, pagam um ingresso, sobem no caminhão e seguem sacolejando pelas estradas, com pouco conforto. Ainda bem que não é longe.

O nosso caminhão quebrou no meio do caminho. Foi muito azar pois o caminhão era muito experiente. Tudo bem, logo chegará socorro, são muitos deles que circulam pelo caminho.

Sob um sol escaldante, cada passageiro procurou uma sobra para se abrigar.

Não demorou e o socorro chegou. Agora sim! Veio um caminhão ainda mais experiente e com ele conseguimos chegar no Cabo Polonio.

O lugar é diferente, não sei se posso chamar de bonito. Muitas casas são minúscula, talvez para não ocupar espaço num lugar que tem muito espaço. São feitas com diferente tipos de materiais e tudo vira decoração, num reaproveitamento exemplar.

Tem hotel, pousada e muitos hostels, mais típico dos que vestem pastel escuro.

Durante uma caminhada pela praia, vimos um rapaz curtindo um “barato”, alucinado com os clics de uma máquina fotográfica. Ele batia foto de tudo. Só do céu azul, sem mais nada aparecendo, ele bateu várias fotos. Tirou da areia, da água com clics ligeiros, como se fosse perder alguma cena. Acho que ele vai curtir muito quando revelar as fotos, a máquina dele era com rolo de filme. Tomara que as fotos não saiam esfumaçadas.

Alguns dormem na praia mesmo. Se cobrem e a areia quase que os encobre. Quando acordam batem à poeira e já estão de frente para o mar para mais um dia muito louco, quem sabe?.

A atração principal, acho eu, e o farol, uma construção com materiais lógico, pintado de branco, com portas, janelas, escadas e tem até um jardim com grama bem cortada em volta.

O farol é praticamente a única fonte de energia que  ilumina o vilarejo. Ele completa uma volta a cada 12 segundos, portanto, quem se aventura a caminhar à noite, tem que se localizar enquanto a luz do farol passa. O Farol de Cabo Polonio é declarado monumento histórico do Uruguai.

Atrás do farol com certeza está a maior atração do lugar. Ali fica um centro de convivência de lobos marinhos, centenas deles. Das belas pedras à beira mar, nós turistas ficamos observando os belos bichos molengas se movimentando lentamente. Não sei se eles influenciaram a preguiça nos “cor pastel escuro” ou foram influenciados por eles. O estilo zen é bem parecido, só muda o tamanho e o cabelo. Brincadeira minha. Não quero ser preconceituoso nem com um nem com outro, mas o jeito calmo é o mesmo. Será que o lobo marinho também fuma?

Voltamos no caminhão experiente que não quebrou, paramos no estacionamento, adentramos nossa casa, tomamos um banho, um bom café com pão e seguimos para outro vilarejo na região da fumaça.

La pedrera

O nome da cidade é por conta da formação rochosa pré histórica, ainda da época que a América era grudada com a África, algo em torno de 500 milhões de anos, segundo os cientistas, que assim concluíram após encontrar e identificar fosseis do Gliptodonte. Conhece?

O Gliptodonte era herbívoro, com tamanho, forma e peso de um fusca. Era um tatuzão com uma dura carapaça. Depois que o bicho morria ou era abatido, servia de abrigo para os humanos primitivos. Com cerca de 4 metros de comprimento por 1,5 de altura, era o tamanho de uma boa barraca. Imagino o que um alternativo da cor pastel escuro não faria para viver numa barraca deste estilo. Seria radical!

Foto da Wikipédia

Ao anoitecer, durante o dia e na madrugada também, imagino, a fumaça corria solta entre jovens e idosos. Vimos uma senhora com mais de 70 anos com um belo tarugo na boca, puxando a fumaça tranquilamente andando na rua. Enquanto ficamos esperando uma fritada de bolinhos de algas, típico da cidade, um senhor com um baseado aceso tentava me dizer que o bolinho dali era o melhor, falando um espanhol molenga, eu não entendi quase nada.

Eles fumam na rua, nas mesas da lanchonete, andando de bicicleta e até em frente o posto policial, como quem diz: agora pode.

O vilarejo é tranquilo, frequentado por muitos jovens.  O pico do turismo é na Semana Santa, quando acontece o Festival de Jazz mais importante do Uruguai e, no verão, acontece o Festival de Filmes Curta Metragem, com a participação de vários países. O restante do ano é pacata, pois sequer suas praias são atrativas para banhistas.

Andamos por uma rua pedonal com muitos no estilo pastel escuro vendendo artesanatos, acho que só por vender por que não eram assim aquela obra de arte. Comemos churros e seguimos para La Paloma.