13. Diamantes em Mucugê


 

Saímos do litoral e seguimos para a Chapada Diamantina, no centro sul da Bahia, para conhecer uma parte da história do diamante no Brasil

Pelo caminho as paradas para comprar frutas é sempre muito agradável. Antes de comprar, o vendedor faz questão que você prove as frutas que está vendendo.

Chegamos em Mucugê em junho, quando acontece a maior festa da cidade “O Dia de São João” que na Bahia se comemora o mês inteiro.

A cidade fica toda enfeitada com bandeirinhas coloridas, cortinas no lado de fora das janelas e fogueiras em frente as casas. Alimentos e danças típicas, fazem parte da festa.

Ficamos hospedados no Camping Mucugê, muito bem localizado, com bela estrutura e um atendimento familiar. Ali, em meio às montanhas, ficamos na agradável convivência com a natureza e vizinhos.

No terreno ao lado, fora do camping, estão várias árvores carregadas com mangas maduras, caindo do pé e o dono autoriza quem quer colher.

Ade, recordando os tempos de infância, não resistiu e, bem equipada, colheu e degustou a fruta lá mesmo, embaixo da mangueira.

Mucugê, com pouco mais de 300 construções, quase todas edificadas com pedras e adobe, foi tombada como patrimônio historico. A arquitetura está bem preservada e lembram o estilo dos portugueses, quando exploraram a região.

Uma das atrações da cidade é o cemitério Bizantino de Santa Isabel, localizado entre a encosta e o centro histórico, construído para enterrar os mortos por cólera.

Os mausoléus reproduzem fachadas de igrejas, com sepulturas cravadas nas pedras e com lápides caiadas de branco.  A influência do estilo bizantino veio por conta dos compradores de diamantes de origem turca, que reproduziram suas origens dos tempos do Império Bizantino.

CIDADE DOS DIAMANTES

Mucugê também ficou conhecida como a cidade dos diamantes.  A história da pedra eterna, de corte perfeito esta registrada  na pequena cidade cravada na Chapada Diamantina.

A exploração na região era mantida em segredo, até que um garimpeiro foi preso e acusado de roubar diamantes. Ele teve que confessar e acabou com o segredo.

A busca da riqueza e do poder foi disputado com violência por famílias comandadas por coronéis. O coronel Cazuzinha, dominou a região. Depois de encontrar duas pedras de grande valor, comprou maquinários, contratou pessoas e extraiu seis arrobas de diamantes. Depois o Estado acabou com a exploração.

A região de Mucugê já foi considerada a maior produtora de diamantes do mundo, até que foram encontradas as minas na África do Sul.

O BRASIL SEMPRE FOI BOM DE SER EXPLORADO

Com o diamante aflorando na terra, o Império imediatamente organizou um caminho, a Estrada Real, única via autorizada de acesso à região das jazidas, tanto para circulação de pessoas como de mercadorias. Era crime a abertura de novas rotas diferentes daquelas estipuladas pela Coroa.

Outra oportunidade foi quando descobriram o carbonado, uma pedra utilizada pela indústria por conta de sua grande resistência. Ficou conhecida como diamante negro que, um esperto francês, comprou quase tudo a preços módicos e revendeu aos fabricantes de brocas para perfurar o Canal do Panamá.

A EXPLORAÇÃO EM MUCUGÊ

Para conhecer e sentir a história onde ela aconteceu, seguimos a pé pelo asfalto e por trilhas, explorando lugares onde as gemas eram extraídas do solo, das rochas e dos rios.

No Parque Nacional, encontramos a Casa do Garimpeiro e o Projeto Sempre Viva, que ainda preservam algumas cavernas usadas como abrigo pelos garimpeiros. A história ainda é recente, fomos recebidos por um guia que é  filho e neto de garimpeiros. Ele próprio também já garimpou em busca da grande sorte.

As cavernas ou tacas, onde viviam os garimpeiros, tinha apenas o essencial, sem conforto ou segurança. Esta casa na foto de baixo onde está o museu, era a casa da Dona Sinhá Inácia, que mantinha ali um pequeno comércio de necessidades básicas. Dizem que ela aceitava diamantes como pagamento.

Com a mecanização da extração desenfreada de diamantes, os órgãos do governos proibiram a mineração por questões ambientais e os garimpeiros foram embora. Os poucos que ficaram iniciaram o cultivo da terra e hoje a região se destaca na produção da agricultura e pecuária familiar.

Segundo estudos, apenas 12% dos diamantes foram extraídos e, com a proibição, os moradores ainda hoje lamentam por serem impedidos de retirar a riqueza no próprio quintal, como faziam no princípio.

O morador não pode extrair mas, conta uma lenda, que alienígenas costumam frequentar a região para extrair nosso minério, numa mina que é só deles. Um gás muito forte espanta os humanos que se aproximam da mina. Contam também, que na cidade mora o filho de uma extraterrestre que abduziu um morador e teve um filho com ele.

Não vimos seres do espaço, mas encontramos resquícios nas trilhas dos tempos áureos, quando a riqueza corria pelas águas amarelas e montanhas de pedras.

Mucugê hoje vive basicamente da exploração do turismo, esperando que um dia a febre da pedra eterna volte a movimentar o comércio.

Atualmente a África do Sul domina o mercado e guarda dois recordes: o da maior pedra e a de maior valor comercial. O maior diamante é o Cullinan I, encontrado em 1905, com 3.106 quilates. Ele foi cortado em várias gemas, que foram polidas e cravadas nas jóias da coroa britânica.  A pedra com o recorde comercial, tem 803 quilates e foi vendida por 63 milhões de dólares, sem lapidar.

O diamante ao lado de uma pinça. Foto: HANDOUT / REUTERS

Praticamente no mundo todo, são empresas de mineração que exploram a preciosidade. A Chapada Diamantina ficou na história do diamante e ainda guarda grandes fortunas. Quem sabe um dia, uma exploração organizada, com privilégios também ao garimpeiro, devolva o título ao Brasil, de maior minerador da pedra eterna.

Enquanto a mineração não volta, Mucugê guarda suas trilhas sucumbidas, onde a pedra dos sonhos ainda pode ser encontrada.

Nós andamos pelas trilhas, bebemos água na mesma mina que os garimpeiros bebiam, passamos por rios e trilhas, olhando pelos cantos, mas nada de encontrar a pedra do amor eterno.

O nome diamante vem dos gregos, que acreditavam que a pedra era o símbolo da transparência e da invencibilidade,  também achavam que o brilho era a chama do amor. Na Idade Média era símbolo de coragem e hoje, além do presente ideal para as noivas, é um símbolo da riqueza e do poder.

Ade e eu não encontramos nossa pedra dos sonhos nas trilhas de Mucugê, mas continuamos com a nossa crença de que, viver bem e juntos a cada dia, eternizamos o amor com nosso convívio harmonioso.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *