Expedição Bahia 2021 2 Beleza e histórias, no caminho de volta à beira mar

2 Beleza e histórias, no caminho de volta à beira mar


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Descobri pela internet que a cidade de Carrancas em Minas Gerais, fundada por exploradores portugueses e paulistas que chegaram em busca da riqueza, é um dos lugares mais procurados para observar o céu noturno do Brasil.

Os exploradores não encontraram a riqueza do ouro, mas desvendaram a riqueza nos recursos naturais. Alem do céu estrelado, Carrancas se destaca por uma coleção de serras com trilhas que levam a grutas, poços e muitas cachoeiras, que atraem visitante de todo País.

A escolha de Carrancas foi por conta dos passeios noturnos e das cachoeiras, que Ade adora.

Liguei antes para um camping e o dono se mostrou solicito em nos receber. No dia que chegamos, descobrimos que a Caca não passava pelo portal de entrada do camping. O dono nos recebeu mancando, com um pé quebrado e era ele que iria nos levar para passeio noturno. Para completar, o céu estava parcialmente encoberto por conta das queimadas na serra.

E agora? Sem camping, sem guia e sem céu estrelado.

Sem problemas. O simpático dono do camping nos deu duas opções: dormir na praça, em frente a igreja ou em outro camping um pouco mais afastado da cidade. Fomos para o camping.

Os principais pontos turísticos em Carrancas são conhecidos por “complexo”. O  “complexo” é um conjunto de atrativos, localizados em propriedades particulares ou municipais e não é assim tão complexo. Até o menino da família que cuida do Complexo é um guia.

Sem pensar em exploração infantil, o pequeno guia falou tudo que estava escrito na placa de forma decorada e rapidamente,  dizendo no final: “É tudo pra esquerda” e foi embora, sem mais perguntas.

Seguimos a trilha sem sinalização e logo encontramos a primeira cachoeira. Mais um pouco de caminhada outra cachoeira, um poço, outra cachoeira, outro poço, todos acessíveis, sem grandes riscos, sempre pra esquerda.

Recentemente ficamos sabendo de um fato que ocorreu numa cachoeira, com uma mulher que se banhava. Uma cobra sofreu um acidente e caiu na cachoeira, exatamente em cima da mulher, que sofreu picadas do animal peçonhento apavorado. Como Ade tem pavor a cobras, passou a dizer que não queria mais entrar em cachoeiras.

Na primeira oportunidade que Ade teve, não resistiu e se deliciou nas águas frias da montanha de Carrancas.

Paramos também em Tiradentes, cidade mineira que mantém viva uma parte da história do Brasil, de séculos atrás. Tiradentes preserva suas casas, em ruas e calçadas de pedras, que inspiram a arte. A região é rica em montanhas com trilhas, rios, cachoeiras e uma gastronomia típica.

É bom ficar a noite no centro histórico, observando as pessoas que passam conhecendo para depois escolher um lugar para sentar e decidir o que vai comer. A farta e saborosa comida mineira é desejo de quase todos que chegam para visitar. O torresmo e a cachaça são os mais pedidos.

A comida é boa e cada bar, tem um prato especial da casa. Um dia, Ade e eu estávamos no restaurante e na parede atrás de nós havia um cartaz informando o cardápio. Chegou uma família e um deles falou em voz alta: Olha, aqui servem risoto que ora por nós. Nós e os demais rimos discretamente e ele insistia para que todos olhassem, admirado com o nome do prato, até que alguém o corrigiu mostrando a ele que não era “risoto que ora por nós” e sim “risoto com ora-pro-nóbis”, aquela planta saborosa e útil para amenizar queimação do estômago que. depois da cachaça com torresmo, vem a calhar.

Tiradentes também nos chamou, por conta de um belo camping que tem na entrada da cidade, a 2 km do centro. A estrutura é muito boa, com ótimo atendimento e vários vizinhos campistas.

Tem até o trem maria fumaça que passa em frente, apitando aquele saudoso apito e soltando fumaça.

 

Fomos até a cidade caminhando, parando nas lojas até o centro histórico. Tem uma diversidade de lojas com artes e objetos de decoração, especialmente os com madeiras.

Paramos para admirar uma loja que vende relógios de parede, fabricados em várias partes do mundo, esculpidos com ricos detalhes, com sons que encantam e ainda contam as horas.

A ciência da medição do tempo (horologia), vem desde os primórdios, quando o homem sentiu necessidade de fracionar o tempo para orientar o plantio. Primeiro foi o relógio do sol, depois o relógio da água, depois o relógio de areia (ampulheta) e, depois que Galileu em 1580, descobriu o isocronismo, surgiram os primeiros relógios movidos por molas ou pêndulos. Até hoje, relógios de parede são procurados por seu valor estético e artístico.

Relógio de parede com pêndulo e com som…, ainda vamos ter um na nossa casa branca.

Deixamos a história antiga de Tiradentes e seguimos fazendo a nossa história, novamente rumo ao mar.

Aportamos em Marataizes para conhecer um dos campings com melhor estrutura para campista. Devido ao período do ano, à pandemia e o alto valor das diárias, não tinha mais ninguém acampado.

Levantamos acampamento e seguimos a beira mar.

Deixamos a rota principal e fomos conhecer a Associação das Paneleiras de Goiabeiras, na periferia da cidade de Vitoria, no Espírito Santo. Ali estão reunidos dezenas de artesãos que fabricam panelas de barro, apropriadas para cozidos, principalmente peixes e, especialmente, a famosa Moqueca Capixaba.

Conversei com alguns artistas, que fazem parte da associação e o desgosto deles é evidente. Eles não conseguem se unir de forma cooperativa e padecem individualmente. Falta união para trazer o barro do mangue e cada um tem que providenciar a própria madeira para fazer a queima das panelas. A concorrência entre os produtores, cada um com poucos recursos, está tornando a arte de fazer panelas de barro, inviável. Muitos estão abandonando. Poderia ser uma boa cooperativa, mas faltam lideres de confiança para fazer a gestão dos negócios. A prefeitura divulga com orgulho a arte de fazer panelas de barro na região, mas peca um pouco na ajuda para a gestão do negócio.

O processo é bem artesanal. O barro é socado, ou pisado, na beira do mangue e vendido em bolas para cada artesão, que molda sua própria panela, cuida da queima e prepara para a venda.

Chegamos ao anoitecer na cidade de Guarapari, famosa pelas belas praias e tratamos logo de encontrar um bom restaurante que servisse a famosa Moqueca Capixaba. Perguntamos na rua e um senhor nos informou um restaurante. Já na chegada notamos que “não era aquele restaurante”, mas resolvemos testar. Pedimos a muqueca e confirmamos, “não era lá aquela moqueca”.

Pagamos e fomos dormir no Camping Clube do Brasil, no privilegiado espaço em frente ao mar, na Praia de Setiba, onde já ficamos outras vezes, numa praia quase exclusiva.

Descobrimos mais uma atração no caminho, quando estávamos passando pela BR 101 e avistamos um belo e gigante Buda na beira da estrada, no município de Ibiraçu, no Espirito Santo, recém inaugurado. Paramos.

O buda gigante está no Caminho da Sabedoria, um circuito de peregrinação espiritual, criado para atrair o turismo religioso. O Caminho é feito pela Mata Atlântica e passa por cachoeiras, quilombos, vinícolas, igrejas e mosteiros. O trajeto tem 108 km e o Buda gigante é a mais nova atração.

Ficou no mínimo curioso um “Buda do Espírito Santo”, mas é isso mesmo, o monumento foi criado para propor um diálogo entre o Cristianismo e o Budismo. A estátua tem 35 metros de altura e se tornou uma atração para que passa pela estrada ou se propõe a fazer o caminho espiritual que dura 4 dias.

No local também tem uma bela lanchonete que serve pasteis coloridos e o maior Jardim Zen do Ocidente. O Jardim Zen, que representa serenidade, é um espaço para relaxamento e renovação de energia. São feitos com areias e pedras em desenhos ondulado que simbolizam as ondas do mar. Também são feitos em miniaturas para decorar ambientes fechados.

Ao lado do Jardim Zen, tem uma Escola Oficina de Cerâmica, mantida pelo mosteiro budista, que abriga oito famílias que esculpem utensílios de cerâmica e vendem no próprio local e enviam para lojas em todo Brasil.

Assim, nossa vida continua, sem pressa e atentos para não perder nada pelo caminho. Depois de 27 dias que saímos da nossa casa branca na beira do rio, chegamos a Porto Seguro na Bahia, onde vamos reencontrar amigos e ficar “roda quadrada” até que o próximo destino nos chame.

 

 

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