Expedição Bahia 2021 1 Voltando para vida nômade

1 Voltando para vida nômade


 

Nossa saúde no Vale do Paranapanema foi satisfatória nos tempos de pandemia, pra não dizer ótima. Quase concluímos nossa casa branca na beira do rio. A cerca de madeira foi um desafio da carpintaria e um marco para o reinicio da nossa vida nômade temporário. Vacinados, seguindo protocolos, contágios diminuindo e a casa branca habitável, foram os sinais verdes para o inicio do nosso plano de viagem para 2021, após 15 meses estacionados.

O sonho agora é viajar novamente pelo Brasil com nossa casa sobre rodas, fazendo e reencontrando amigos do campismo e ficando em quintais também aconchegantes.

Primeira parada, Curitiba, nossa cidade nos últimos 35 anos. O nosso quintal foi no Estacionamento Ambiental, de amigos queridos, que nós receberam de forma perfeita.

Como deixamos de fazer nossos exames médicos periódicos no ano passado, iniciamos rapidamente uma maratona de consultas e uma bateria de exames. Pelos números e avaliações médicas, percebemos que nossa vida no isolamento foi muito saudável. Estamos bem de saúde, por dentro e por fora, liberados para viagens.

Apos duas semanas em Curitiba, saímos num domingo pela manhã rumo ao nordeste do Brasil, com roteiro planejado para passar pelo litoral e interior de uma boa parte do Brasil.

Passamos pelo litoral sul de São Paulo, com intenso movimento de veículos e paramos no Guarujá. Como na cidade não encontramos um camping, procuramos um estacionamento 24 horas. Paramos num estacionamento que aceitou nos receber, mas a segurança do local nos deixou dúvidas.

Partimos de Guarujá e já anoitecendo, chegamos em um camping em Bertioga, com uma boa estrutura em frente a praia.  Foi só uma noite. Na manhã seguinte passeamos pela praia e seguimos viagem.

O litoral norte de São Paulo tem muitas opções de lazer com dezenas de praias de águas límpidas e calmas.

Entramos em um dos condomínios que ficam entre a rodovia e o mar. Mesmo com uma imponente portaria, resolvemos tentar a entrada. Sem problemas, entramos para conhecer mais um espetacular condomínio fechado no litoral brasileiro, criados e mantidos para os mais abastados, quase sempre nos melhores lugares.

É caro comprar um espaço e manter as taxas em dia mas, como quase sempre, as coisas mais caras são as melhores e ali não é diferente. A partir de 2 milhões de reais já é possível adquirir uma morada no condomínio. Depois queríamos dormir naquele local seguro, confortável e bonito, mas não deixaram.

Paramos para o almoço em Baraqueçaba em São Sebastião, numa bela praia protegida pelo formosa Ilhabela.  Estacionamos numa rua sem saída e ali, à beira mar, Ade preparou uma de suas refeições caseiras saborosas e cheirosas. O cheiro atraiu os vizinhos e já surgiram amizades momentâneas.  Vieram para conhecer um pouco de nós, contar um pouco sobre eles e oferecer seus préstimos, caso precisássemos.

Depois do almoço conhecemos a praia e eu conversei com um pescador, que me contou suas mágoas com o momento atual. Ele  não reclamou dos peixes e sim dos amigos do alheio que, vez ou outra, roubam suas traias de pesca. Terminamos a conversa a mais de 10 metros de onde começamos. Eu respeitando o distanciamento social, procurando manter 2 metros de distância, mas ele chegava próximo a cada novo caso que contava.

Saímos do litoral e subimos a Serra da Mantiqueira rumo a Campos do Jordão. No caminho muita desolação com as queimadas nas florestas por conta de uma seca prolongada.

Cravada na Serra, Campos do Jordão se destaca pela gastronomia e pela arquitetura no estilo suíço. O ambiente abriga parques, montanhas, cachoeiras e florestas que encantam turistas de todos os lugares.

Trafegando pela cidade, avistamos um estacionamento onde já estava um motorhome. Entramos, nos instalamos e ficamos seguros e bem localizados, bem próximo aos agitos da cidade.

Para quem decide pela vida nômade, viajando em casas sobre rodas de pequeno porte como a Caca, os estacionamentos urbanos, bem localizados , com espaço e segurança 24 horas, são boas opções para o pernoite. Se fornecer pontos de água e eletricidade, melhor ainda. O resto, tem na Caca.

Em Campos do Jordão a noite é rica em bares e restaurantes, onde chopp acompanha os pratos tradicionais. Jantamos um Fondue (fundida), à base de queijo aquecido por uma lamparina. O queijo fundido é servido com uma guarnição de carnes, pães e legumes cozidos. Ao final entra a panela com chocolate, acompanhado de frutas. Cada um escolhe e espeta um pedaço com um garfo, mergulha na panela e come.

Este costume de comer à beira de um fogareiro se repete pelo mundo a séculos, cada região com suas peculiaridades. Versões brasileiras do Fundue, são as panelas e as chapas de metal aquecidas, que também reunem pessoas em sua volta para se servir e conversar.

A forma de comer em volta do fogo, com cada um se servindo diretamente, teve primórdios nos costumes da Mongólia. Talvez por isso, uma de nossas panelas mais vendidas se chama gengiskan, (Gengis Khan), fundador do Império Mongol.

A Serra da Mantiqueira, conta a lenda da princesa tupi que se apaixonou pelo sol e ele por ela. A lua enciumada reclamou ao deus tupã, que prendeu a princesa dentro das montanhas. Entristecida, a princesa chora todos os dias e suas lágrimas formam as cachoeiras, riachos, rios e nascentes. Assim, as montanhas foram batizadas como Amantikir, a “montanha que chora”. Por conta de erros na pronúncia ao longo dos tempos, Amantikir se tornou Mantiqueira, a serra mais charmosa do Estado de São Paulo.

Em Campos do Jordão, o nome original Amantikir, ficou preservado no parque que abriga os Jardins que Falam. São dezenas de jardins fielmente reproduzidos de vários países.

Tem os dois labirintos no Amantikir, um redondo e um quadrado. O labirinto redondo apareceu primeiro escrito na mitologia. Depois os egípcios usaram na prática para proteger sepulturas ou servir como guia espiritual. Mais tarde, os romanos criaram o labirinto quadrado, simbolizando algo desconhecido, perdido, com múltiplas opções de saída, com desafios e castigos. Servia também para meditação e reflexão sobre os passos incertos da vida.

Andar no labirinto foi mais um desejo nosso realizado. Só que tem um detalhe. Neste, o caminho está tão demarcado pelos turistas que basta seguir o chão batido que vai direto pra saída. Mas vale a imaginação e a sensação de estar perdido, vagando para encontrar uma saída. Labirintos espirituais e materiais fazem parte da vida. É preciso aprender a percorre-los fazendo tentativas ou seguindo o chão batido para descobrir a saída. Cada um decide.

Hoje, o labirinto é mais um jardim bem cuidado, por caprichos da decoração.

No Parque dos Jardins que Falam tem muitos cantinhos que inspiram os visitantes a fazer fotos para postar ou guardar para posteridade. Uma boa foto, imortaliza o momento e desvenda a vaidade de cada um nas redes sociais.

Infelizmente, o destrato e a força da natureza, causam incêndios que destróem recursos importantes. Desta vez o fogo atingiu o parque e ficou próximo de destruir os Jardins que Falam do Amantikir.

Felizmente, equipes de bombeiros se desdobram para conter o avanço dos focos de incêndios.

A seca prolongada, o sol, o vento e as ações irresponsáveis dos humanos, sãos causas principais dos incêndios florestais que deixam prejuízos que demoram décadas para recuperar.

Ainda por conta das queimadas, nosso próximo destino ficou prejudicado. O plano era contemplar as estrelas no céu, na cidade de Carrancas, em Minas Gerais. Mas esta história fica para o próximo post.

 

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