//17 XINGÓ – SE

17 XINGÓ – SE

Viagem pelo rota do fogo, rumo ao Xingó. Muito quente o vento parece queimar. Paramos duas vezes em sombras quentes. Mesmo de moto com vento de frente, na estrada, não tem como refrescar. Uma alternativa necessária é água de côco.

 
 
Passamos pelo meio de uma cidade muito movimentada de gente que vem fazer compras de “pau de arara”. São caminhões com bancos na carroceria coberto com lona, que transportam pessoas e compras para levar para os povoados e zonas rurais distantes. 
 

 

 
Pequenas motos também transportam grandes cargas e a família. Todos sem capacetes.
 
Chegamos em Canindé do São Francisco, não vimos opções de hotéis e nos indicaram ficar em Piranhas, na cidade velha, agora no Estado de Alagoas. Chegamos com 43 graus, no meio da tarde.
 
 
No centro de turismo fomos informados que as pousadas e hotéis estavam todos lotados por culpa do feriado.  Deixei a moto numa sombra com a Ade e fui a pé procurar pouso. Achei a Pousada do Lampião que tinha uma desistência e foi lá que ficamos. Bem próximo aos atrativos, no centro da cidade. 

A cidade é bem antiga e esta é a parte velha, bem sinalizada, com suas edificações preservadas.
 

 

 

 

Tomamos um banho descansamos um pouco e fomos procurar um local para comer. Nos indicaram restaurantes na beira do rio e escolhemos o restaurante Velho Chico. Me perdoe o pecado, mas foi uma comida horrível, com peixe ensopado feito a várias horas atrás, salada, arroz e pirão tipo “játivi”, ou seja veio para a mesa várias outras vezes. Não conseguimos comer. Reclamei com a dona e disse que aquilo era uma falta de respeito. Paguei mesmo sem a gente comer. Ela pediu desculpas e não teve a dignidade em não cobrar ou sequer fazer desconto.   
 
Andamos pela cidade, com fome, conhecemos outras opções e encontramos uma carne de bode muito boa, feita com queijo, azeitonas e cebolas, acompanhado por cerveja bem gelada. Agora sem reclamação. 
 
A noite, no largo do centro, uma banda animava com músicas populares, num ambiente bem agradável. 

Fomos tratar do passeio para amanhã. Aqui o preço das pousadas, dos passeios e dos taxis, são tabelados. Os hotéis são poucos e praticam preços absurdos.

 

 

Fomos ao canion de Xingó, a bordo de um catamaran, conhecer os paredões de rochas esculpidas pelo Rio São Francisco. 

 

 


Xingó é um nome indígena que significa “águas que correm por entre as pedras”.  Na passagem do rio por culpa da barragem da Usina de Xingó, estão vários braços do rio e lagoas com águas límpidas, esverdeadas e quentes. 

 

 

 

 

Os paredões formam figuras nas rochas e locais de águas mansas, propícias para o banho. Alguns locais a água é coberta de flores que nascem nas rochas. 

 

 

A estrutura construída para o embarque dos passeios e para o local de banho no meio do rio são muito boa. 

Tem um belo restaurante, com banheiros limpos, bom atendimento, chuveiros, prainhas delimitadas e local cercado para o banho no rio. 

 

 

Daqui partem os catamarans.

 

 

 

Os barcos são novos e confortáveis. Um guia com microfone organiza o embarque e diverte os turistas o tempo todo, contando histórias da região, fazendo piadas, entrevistando e tocando músicas regionais e que falam do Rio São Francisco, famoso em todo Brasil.


De volta ao pier, uma Banda de forró toca no restaurante enquanto todos almoçam. 

 

 

Depois do passeio, passamos pela Usina de Xingó e esta foto me fez lembrar da minha sempre querida Copel. 

 

 

Hoje o passeio foi encantador. 
 
Voltamos para Piranhas com um calor impressionante. Rajadas de ventos quentes queimam a pele como se estivéssemos muito próximo do fogo. No meio da tarde é quase impossível a sobrevivência fora da sombra ou da água. Com mais de 40 graus, sem vento, “é prá cabá”, como dizia meu amigo, saudoso Marcos kloster.  

Tomamos banho e descansamos com a ajuda indispensável do ar condicionado. 
 
Jantamos lasanha 4 queijo, muito gostosa, pedimos uma salada extra e percebemos que por aqui saladas não são da rotina. Não tem no cardápio, não sabem preparar o prato, não cortam as verduras como deveria e não sabem cobrar. Uma salada com tomate, alface, cebola e repolho roxo por 5 reais. 
 
Alugamos um barco pilotado pelo seu Carlinhos, que também é guarda vidas contratado pela prefeitura, para ficar o dia inteiro à nossa disposição, agora rio abaixo. 

 

 

Navegamos no Rio São Francisco até o Angico, onde tem um bom restaurante, com comidas típicas e pequenas praias nas margens o rio. 

 

 

Fomos fazer a trilha do cangaço pelas caatingas até onde foram mortos Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, Maria Bonita, parte do seu bando e alguns macacos, como eram chamados os policiais pelos cangaceiros.

 


Nossa guia, uma bonita morena vestida de cangaceira com o nome fantasia de uma das mulheres do bando. Cangaceira Silas.

 

 

Durante o trajeto passamos pela casa onde morava o coiteiro, que era aquele que oferecia local em suas terras para acomodação, de forma voluntária ou não, para o bando. 

 


Um dia, o coiteiro estava na cidade de Piranhas fazendo compras e um policial desconfiou da quantidade de alimentos que ele comprava. A polícia o seguiu, prendeu-o e como ele não queria confessar, foi torturado para entregar onde ficava o esconderijo do bando de Lampião. 

 

 

Virgulino saiu pelo sertão para viver de forma cruel, sem piedade, depois que seus pais foram assassinados por um coronel por culpa de disputas de terras e de bodes. Durante sua peregrinação em busca de vingança, matava policiais que se opunha aos seus modos e todos aqueles que não seguiam suas ordens. 

 

 

Quando um membro de seu bando morria, ele colocava o mesmo nome em outro membro. Isto o deixou famoso e respeitado na região, por que pensavam que ele ressuscitava seus homens.
 
Ele se envolvia em conflitos de terras e fazia sua própria sentença como  justiceiro do sertão. 
 
Existiam políticos importantes que se interessavam ou odiavam as atividades de Lampião. O governo de Sergipe o apoiava e financiava suas andanças. O governo da Bahia oferecia recompensa de 50 mil reis de conto para quem o matasse. Na disputa por divisas territoriais, usavam os cangaceiros para alcançar seus interesses.
 

 

No dia do massacre, mais de 50 soldados armandos com metralhadoras, demoraram mais de 4 horas para fazer o trajeto que nós fizemos em 40 minutos. Isto por que o armamento era pesado, o grupo não poderia fazer barulho e o coiteiro ainda tentava iludí-los. 

Separaram em 3 grupos para cercar completamente o acampamento e um soldado não obedeceu o plano, atirou antes, o bando reagiu, iniciou o ataque, a matança e parte do bando fugiu. Morreram soldados e cangaceiros. Este foi o local onde tombaram os corpos.

 

 

 


Dizem que Maria Bonita, que era muito brava, ajudava na matança e tinha um metro e meio de altura. Antes de morrer ainda conseguiu segurar a mão de Lampião, terminando assim a mais famosa história de amor no cangaço brasileiro.

 

 

Nossa guia, Gangaceira Silas, o tempo todo citou nomes, fatos, locais, datas e horários da história. Pena que não me lembro de tudo que ela falou.

 

 

Foram tantas as histórias que ouvimos de Lampião e Maria Bonita que fica uma dúvida se ele era bandido ou mocinho. O fato é que sua luta foi em vão.  Ainda hoje existem coronéis, injustos e poderosos, por estas bandas e, pior, o estilo se espalhou por todo Brasil, de forma agora mais profissionalizada. 
Hoje lampiões não seriam úteis para livrar nosso País da escuridão. Agora muitas coisas acontecem às claras. Não precisamos de Lampião, precisamos de inteligência, virtude e cultura voltada para o bem e para a justiça em sua forma mais natural.
 
Enquanto a nossa galinha de capoeira era preparada no restaurante, fomos até uma cidade próxima onde trabalham rendeiras sentados no chão e falando o tempo todo como se o assuntos nunca terminasse. 

 

 

A Ade escolhia rendas e eu no meio delas ouvindo mais histórias sobre a família de Lampião e Maria Bonita, seus parentes que ainda vivem na região, sobre moradores da cidade, sobre seus filhos e maridos que foram embora para São Paulo. O tempo foi passando e suas hábeis mãos não paravam de dedilhar desenhos no tecido, prática esta deixada de herança pelos holandeses que por aqui passaram e ensinaram as técnicas de como fazer rendas. 
 
Almoçamos nossa galinha de capoeira, o mesmo que nossa galinha caipira enquanto o seo Carlinhos esperava pacientemente.

 




Tive que bater neste belo ganso. Ele partiu para o meu lado, enfrentou, tentei afastá-lo, até que a mulher gritou que ele beliscava. Não tive saída, dei-lhe um tapão que ele foi parar longe. Foi legítima defesa.

 


Voltamos ao entardecer rio acima, felizes por conhecer um pouco mais da nossa história, em pleno local onde ela aconteceu.

 



Veja o filme de nosso belo passeio.
 

 

Voltaremos para o litoral que apesar do calor, tem o vento que ameniza.