//24 – USHUAIA, O FIM DO MUNDO, SEGUNDO OS ARGENTINOS

24 – USHUAIA, O FIM DO MUNDO, SEGUNDO OS ARGENTINOS

Passamos pela balsa, adentrando o Chile, a terceira fronteira da nossa expedição. Por poucos quilômetros em solo chileno e logo chegou nova fronteira e entramos novamente na Argentina, seguindo o  caminho até o fim do mundo, segundos argentinos.

Paramos para colar nosso adesivo em solo chileno, adicionando mais uma bandeira no nosso painel ambulante. Rodamos aproximadamente 220km, metade por estrada de rípio, passamos por uma balsa que transpõe o Estreito de Magalhães e entramos no Isla Grande de Tierra del Fuego, novamente na Argentina.

Na Tierra del Fuego a paisagem e o clima começaram a mudar. Terminaram as infindáveis retas com cerrado, sem árvores, calor e começaram a aparecer montanhas gigantes, frio, curvas e lagos. O que permaneceram foram os fortes ventos.

Paramos nas montanhas para tomar um café feito em casa, com vista para o Lago Fagnano, batizado pelos brancos, ou “Khami”, nome indígena que significa “água grande”. E é grande mesmo. O lago começa na Argentina e termina no Chile, com 104 km de cumprimento e chega atingir 200 metros de profundidade.

Chegamos na cidade de Ushuaia, pensando que era o fim do mundo, mas na verdade ainda tem muita montanha depois. Paramos no portal da cidade para uma das fotos tradicionais de quem chega pela Ruta 3.

Rodamos pela cidade, esperando encontrar algo parecido com Sierra de Los Padres na Argentina, Punta del Este ou Piriápolis no Uruguai, ou Gramados, Campos do Jordão ou Petrópolis no Brasil. Esperávamos uma cidade aconchegante, bonita e bem organizada.

Que nada.

Ficamos um pouco decepcionados com a desorganização por conta de obras, muita poeira e falta de sinalização. Na primeira volta circulando com a Caca, não foi encantador. Acreditamos mesmo estar no fim do mundo.

Procuramos o camping que escolhemos e estava fechado. Partimos para a segunda opção, um parque gratuito, no estacionamento da Estação de Trem. O guardião disse que poderia até arranjar uma tomada de energia, mas nós teríamos que pagar 150 pesos. Tudo bem,

Acho que ele embolsou.

Dormimos bem, mas com muito frio. Pela manhã assistimos a partida do Tren del Fin del Mundo,  que faz um pequeno trajeto até o Parque Nacional e retorna sem muitos atrativos, segundo o guardião. A um custo de 850 pesos mais 350 da entrada no Parque, decidimos não embarcar.

O Tren del Fin del Mundo existe desde 1.909, também conhecido como Tren de los Presos e construído para transportar madeira para aquecer o presídio, fazer comida e para construção. Hoje percorre apenas 8 km, grande parte dentro do Parque Nacional.

Conhecemos um casal de mexicanos que também viajam pelo mundo e agora precisam voltar por que ficaram grávidos. Outro com quem conversamos à beira da fogueira dele, foi um rapaz com 23 anos que saiu de Buenos Aires para conhecer o fim do mundo e

não quer mais ir embora.

Muitos motorhomes circulam pela cidade e ficam estacionados nos parques, nas ruas e nas praças. A maioria são pequenos, 4×4, mas vimos grandes ônibus e caminhões com várias pessoas à bordo.

O caminhão azul, bem moderno, veio da República Tcheca e percorre a América do Sul com nove passageiros, dois motoristas, um cozinheiro e um guia. Cada um tem sua própria cama e o banheiro com chuveiro é coletivo.

Os ônibus amarelos, menos modernos, são aqui mesmo da Argentina, com 40 pessoas na comitiva, 20 em cada ônibus, realizam uma viagem Buenos Aires / Ushuaia / Perú / Buenos Aires, com um motorista em cada ônibus, não tem banheiro, a privada ano mato, tomam banho de canequinha, dormem amontoados no teto do ônibus e a comida é preparada pelos próprios viajantes.

Fomos de Caca para o Parque Nacional, direto até o fim do mundo, onde termina a Ruta 3, após cortar 3.079 km em solo argentino. O fim do mundo, para os argentinos, fica próximo ao Canal de Beagles, mas tem muita montanha no além mar.

Turistas chegam ao ponto mais austral, segundo os argentinos, em ônibus lotados, vindos da Europa, Asia e América do Norte. A maioria são idosos, que chegam, tiram fotos e voltam para os ônibus. Ushuaia é muito famosa no Brasil, mas vimos poucos brasileiros por aqui.

Em um dos caminhos dentro do Parque, havia um japonês com uma chave na mão, parado. Mesmo sem pedir ajuda, Ade achou que ele estava precisando de ajuda e voltamos para perguntar.

Ele disse, mais gesticulando do que falando, que o pneu do carro estava furado e não tinha chave para tirar a roda. Vasculhei minhas ferramentas e encontrei uma que resolveu o problema dele e de sua esposa. Eles vieram do Japão até o Chile, compraram uma van e estão percorrendo a América do Sul. Foram tantos agradecimentos dele e da mulher que nos fizeram refletir como

uma simples ajuda pode ser muito valiosa

Paramos em todos os mirantes e nas lanchonetes do parque. Percorremos algumas trilhas a pé e almoçamos à beira de um dos rios que cruzam o Parque.

Depois fomos ao ponto de onde se avista o famoso Canal de Beagle. Nome dado em homenagem ao barco britânico HMS Beagle, que realizou um estudo hidrográfico na América do Sul, em 1.826.

O Capitão do barco era Fitz Roy que, ainda no Reino Unido, recebeu ordem para leva um jovem naturalista à bordo e a princípio recusou por que ele não tinha cara de estudioso, depois aceitou e levou junto Charles Darwin, que estava analisando a natureza antes de definir sua famosa e contestada Teoria da Evolução.

Escolhemos um dos três espaços para dormir dentro do parque, na beira de um rio com muita lenha para queimar. Perguntamos ao guarda parque que nos autorizou a fazer uma fogueira.

Muito frio, fogueira acessa, duas cadeiras, vinho, queijo e uma sensação indescritível de estar naquele lugar. Eu, Ade, Caca e Deus. Nosso Poderoso Deus, demonstrou ali, mais uma vez, uma parte da natureza que extrapolou no quesito de beleza.

Estávamos sós até que chegou um americano maluco que montou sua casa numa kombi em Foz do Iguaçu, fala até bem o portunhol e viaja com seu cachorro é uma namorada, feliz naturalmente, que encontrou na estrada. Eles moravam na mesma cidade da California, estudaram na mesma faculdade, se conheceram na Guatemala e seguem viagem juntos e felizes.

 

O guarda chegou

Muito simpático veio pedir para apagarmos a fogueira. Convidamos ele para sentar e comer um pedaço de queijo e ele aceitou. Nos disse que estávamos muito hermoso e permitiu que a gente ficasse por mais meia hora antes de apagar e nos deu algumas recomendações.

Primeiro que em parques nacionais deve ser evitado fogueira. Segundo que, caso permitido fogueira, não se deve queimar madeira maior que o nosso antebraço. Terceiro que não basta jogar água na brasa, tem que se certificar que realmente esta apagado ou jogar os restos da fogueira no rio para ter certeza que tudo apagou mesmo.

As recomendações são válidas, mesmo quando o termômetro marcando abaixo de zero graus, dentro da Caca.

Fomos dormir encantados, num local selvagem onde o único som era do pequeno riacho correndo em nosso quintal. Dormimos com muitas cobertas, usamos até o saco de dormir, mesmo assim passamos frio. Dia seguinte percebi que e o vento entrava por uma fresta.

deixei a porta aberta

Dia seguinte acordei 7 horas da manhã o céu azul já indicava a chegada do sol, que só iria nos aquecer depois de transpassar as montanhas. A relva estava coberta de granizo, as montanhas pintadas de branco gelo, literalmente, e a Caca estava cristalizada .

Não demorou muito chegaram 4 fiscais do parque numa caminhoneta. Um deles perguntou com tom de mandão:

De onde vocês vieram? Respondi: Brasil.

Qual cidade? Respondi: Curitiba.

Quando chegaram? Respondi: Ontem.

Quando vão embora? Respondi: Não sei, enquanto estiver bom vamos ficando por aqui.

Um outro disse que já conhece Curitiba, fez algumas brincadeiras tentando falar em português, desejaram boa sorte e se foram, sem expulsar a gente daquele paraíso. Brincadeira, ali é um Parque Nacional e o acesso é permitido a todos, que pagam 350 pesos, é claro.

Logo chegou mais um guarda parque e me pegou cometendo uma infração que eu não sabia. Eu estava treinando a mira com minha arma, a única que carrego na viagem, de fabricação própria. Ele me repreendeu bravo, dizendo que teria que confiscar a minha arma.  Eu disse que ele tinha razão, que eu não sabia, que jamais tentaria acertar um animal e ele amoleceu na decisão e pediu para eu

guardar meu estilingue.

Antes de partir perguntou se fomos nós que acendemos fogo ontem e eu disse que sim. Ele disse que hoje não era para acender até o meio do dia. Se a tarde mudasse o tempo ele me avisaria e aí poderíamos fazer outra fogueira.

A regra básica é nunca mentir para a fiscalização.  Se descobrirem uma mentira tudo pode mudar, para pior. Mesmo que for para sair perdendo, nossa regra é sempre falar a verdade.

Ficamos naquele paraíso por três dias e partimos para a cidade.

Ushuaia é uma palavra indígena e quer dizer: “baía que mergulha no poente”. É a capital da Tierra del Fuego, que ganhou este nome por que os índios que ali habitavam, mantinham fogueiras acesas durante todo inverno. Foram apelidados pelos espanhóis de fueguinos e a história deles na região remonta há mais de 12.600 anos.

Morreram todos depois que o homem branco apareceu. Uma das causas que mais mataram foram as doenças respiratórias. Os historiadores contam que os índios viviam nus, se aqueciam e se secavam rapidamente nas fogueiras, por isso as mantinham acesas. Quando começaram a usar roupas, por insistência dos europeus, passaram a conviver com constantes doenças. A umidade e a falta de higiene acumulando sujeiras que levavam nas roupas, eram propícias às epidemias.

Seria melhor então, andarmos pelados?

Hoje os índios só existem na memória de alguns, nos museus, nas praças e nos souvenires.

Caminhamos pela San Martin, principal avenida do comércio, com marcas para todos os desejos. A arquitetura é típica da colonização europeia, mas não dos espanhóis. Os ingleses, holandeses, croatas, franceses, italianos, poloneses se interessaram muito pelas terras do fim do mundo.

Os ingleses certamente foram os que mais exploraram e ainda não abandonaram a região. As Ilhas Malvinas, que pertence ao Reino Unido, já provocou guerra entre Argentina e Inglaterra e, provavelmente, ainda será palco de mais conflitos. Os argentinos não aceitam a soberania inglesa em mares que lhes pertencem.

Volveremos !

Esta palavra é parte das manifestações e homenagens por conta da invasão britânica. A disputa não acabou, os argentinos ainda acreditam e mantém a chama acesa para tentar novamente recuperar a soberania das Malvinas.

Assim como em várias cidades pela Argentina, aqui no Ushuaia também tem uma praça enorme, homenageando os jovens e despreparados soldados argentinos que sucumbiram diante do poder da rainha mãe.

Este é um dos restaurantes tradicionais e mais antigo da cidade, onde as pessoas que por ali passam deixam seus recados em pequenos pedaços de papel, colados nas paredes e no teto. Ali saboreamos uma aranha do mar, que na verdade é o carangueijo gigante, que por aqui se chama centolla.

Parei para observar um monumento estranho numa praça. É um semáforo gigante em homenagem aos mortos nos acidentes de trânsito. Na Argentina os mortos no trânsito também são lembrados no local onde ocorreu o acidente. Eles pintam uma estrela amarela no asfalto e colocam uma placa com o nome da vítima.

Quando fomos atravessar uma rua, veio um carro em alta velocidade e não parou, ainda que estávamos atravessando na faixa de segurança, Ade comentou…

Tá querendo fazer uma estrelinha é?

O trânsito é mesmo violento na Argentina. Buzinam muito, não respeitam pedestres, poucos usam cinto de segurança e os motociclistas não usam capacetes. Penso que, melhor que as homenagens, seria investir em educação e punição severa aos infratores.

Cadeia para os infratores aqui no fim do mundo nunca faltou. Justamente por ser o fim do mundo, a polícia argentina prendia aqui seus criminosos.

Cadeia antes da cidade

A cadeia do fim do mundo foi construída ainda antes da criação da cidade, para abrigar 580 presos, encaminhados de toda a Argentina. Preferencialmente eram os piores bandidos, mas deteve também muitos artistas e político contrários o governo. A cadeia possui 5 pavilhões e nunca foi cercada.

No início os presos ficavam sozinhos e os vigias contratados ficavam armados, em pequenas guaritas à distância e a ordem era atirar para matar quem tentasse a fuga.

Depois foram criadas funções, definidos salários e atividades dos gestores da prisão.

Dentre os presos famosos que ali ficaram confinados, estão Carlos Gardel, por ter mudado de nome para não servir o exército, um advogado que também era escritor e reitor de universidade, preso por ser contrario ao golpe militar e o mais famoso de todos, um homem de um metro e meio, com orelhas enormes, assassino serial de crianças que ficou conhecido por

“El Petiso Orejudo”

Existia um divisão dos presos conforme os delitos cometidos. Uma ala somente para ladrões, chantagistas e falsificadores e outra para homicidas, separados por assassinos comuns e assassinos por amor. Nas celas dos crimes por amor, existem várias frases escrita pelos criminosos. Destaquei uma delas:

“O homem apaixonado é tolo por natureza e não por definição. Passa a metade de sua existência com um amor e devasta tudo em uma hora”.

Hoje a maior parte das celas estão ocupadas com galerias de arte, lojas e museus. Apenas uma galeria continua sem qualquer reforma. É funesta.

O comércio da cidade bem explora a história da cadeia do fim do mundo e vendem até os uniformes do presos, traje completo, para os turista levarem de lembrança. Duvido que alguém compre.

Falando em explorar, os passeios de barco são os mais ofertados a preços exorbitantes. Você pode ver pinguins, ir ver o farol, navegar pelo Canal de Beagles ou ir até

o Polo Sul, aqui pertinho.

Eu pensava que Evita Peron era uma paixão dos argentinos, mas só vi esta homenagem à ela em toda Argentina. O argentino é mesmo estranho. Não se fala em Messi, em Evita e não vimos sequer uma homenagem ao Papa por onde passamos.

Ushuaia não nos encantou muito. Pela fama que tem, ainda há muito a melhorar, salvo as belezas naturais. Termino este capítulo com mais uma foto obrigatória para todos turistas que visitam o fim do mundo, segundo os argentinos.